Jean Simmons

4/02/10

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As grandes deusas do cinema eram a Rita Hayworth, a Ava Gardner, a Greta Garbo, a Ingrid Bergman, Sophia Loren e Gina Lolobrigida, Jane Russel e Gina Lollobrigida. Mas já vi muito fã de cinema dizer que sua preferida era a Maria Montez, a Olivia de Havilland, até a Bete Davis. Gosto não se discute. Discretamente, a minha favorita era a Jean Simmons. Inscrevia-se na tradição da Bete Davis e da Ingrid Bergman, porque era, ao contrário da maioria, uma grande atriz. Mas nunca seguiu o estilo mulherão: era inglesinha, mignonzinha, graciosinha.

Morreu há duas semanas, aos 80 anos, em sua casa na Califórnia. 

Um viva à qualidade da TV brasileira

3/02/10

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Um forte sintoma da decadência editorial da grande mídia é a qualidade dos novos articulistas que frequentam Folha, Estadão e quetais. Uma das revelações da Folha é o escritor português João Pereira Coutinho, que se presta ao papel de polemista que em outros veículos, noves fora, é cumprido por Diogo Mainardi e Demétrio Magnolli. Há articulistas que são tucanos assumidos, outros – poucos, na grande imprensa – petistas ou lulistas escamoteados.

E há os radicais, que se dizem apenas independentes, como o Coutinho. Cada artigo dele traz um infindável desfile de bobagens pretensamente eruditas, mas sempre consultando as fontes erradas. É a velha história da ciência a serviço da ideologia, uma excrescência que se diz iluminista, mas no fundo é precisamente o contrário.

O artigo desta terça, por exemplo, é sobre a televisão. Coutinho reza que os benefícios do conteúdo da TV são maiores do que os seus malefícios. E evoca um certo Charles Kenny, de quem eu e, diga-se de passagem, o próprio articulista nunca tínhamos ouvido falar. Aparentemente, a pesquisa do senhor Kenny a que Coutinho se refere é do tipo positivista, funcionalista: tem muitos números, baseia-se na lógica cartesiana e procura não mudar o sistema, mas corrigir os pequenos vícios que há dentro dele, enquanto o próprio sistema continua religiosamente igual.

Sabe o leitor quanta gente já desenvolveu estudos de recepção sobre a TV? Quem se aventurou pelo pequeno inferno que é uma pós-graduação em Comunicação Social faz, no mínimo, uma vaga idéia. Não é o caso de Coutinho. Ele desenvolve um raciocínio simples, para não dizer simplista. Às idéias dos estudiosos que enxergam a TV de maneira crítica, aqueles que Umberto Eco chamaria de apocalípticos, chama-as de ignaras e inúteis. Acha que as “más influências” das novelas (aspas dele) são, na realidade, boas influências. A nova intelligentsia mundial, ou pelo menos parte dela, apoia a teledramaturgia da Globo.

Até vinte anos atrás, a intelectualidade entre os comunicólogos rezava pela cartilha de Frankfurt, gente como Adorno, Horkheimer e Marcuse, que cunharam o termo Indústria Cultural, jamais contestado até hoje, e desenvolveram um pensamento segundo o qual a tendência da chamada cultura pop – que não é a erudita nem a popular, mas sim aquela feita pela indústria para o consumo das massas – é a de nivelar por baixo a cultura de seu consumidor.

Nos últimos vinte anos, contudo, é Frankfurt quem sofre com outra tendência, a de relativizar todas as leis totalizantes que vieram com a Modernidade. Aconteceu com Freud, com Marx, com Darwin, e aconteceu com Adorno. Para o novo pensamento, a Indústria Cultural, sim, existe, mas ela não é necessariamente ruim. Essa tendência surgiu entre a direita, mas também entre pesquisadores marxistas, como o jamaicano Stuart Hall e o brasileiro Carlos Eduardo Lins da Silva.

Em si, a relativização não é perversa. É possível que, no afã de abraçar o mundo, as citadas leis totalizantes tenham produzido muita miséria física, econômica, intelectual. Não raro, um psicólogo que pregue as leis de Freud com muito rigor ou, pior, um sociólogo que siga a cartilha de Marx ao pé da letra nunca conseguem contribuir para a expansão do conhecimento humano. Tratam a teoria como bíblia, e o resultado do pensamento científico – que para ser válido tem de ser falsificável, no dizer de Popper – é um dogma. Dogmas não são uma questão de ciência, mas de fé.

O problema é que a ânsia de desdizer essas teorias que, se são totalizantes, nem por isso são fundamentalmente erradas, pode ser por si só dogmática. É um jogo perigoso. O pensador livre vive numa corda bamba e tem de cuidar para não escorregar nos seus próprios radicalismos. O fato de Adorno ter encarado os receptores da comunicação como uma raça disforme e sem vontade própria não faz com que os efeitos das obras exibidas pela TV sejam menos perversos.

Lins da Silva, por exemplo, concluiu, em Muito Além do Jardim Botânico, que a exposição do Jornal Nacional a comunidades pobres não evitava que elas adquirissem senso crítico com relação ao que viam. É verdade, mas a questão, como escreveria mais tarde Armand Mattelart, é: quem é que domina o processo com o qual essas comunidades adquirem senso crítico? Em outras palavras, no momento em que percebessem que o Jornal Nacional – aquele que trata o público como Hommer Simpson – não é minimamente confiável, não seria de se esperar que essas comunidades fossem procurar notícias de outras fontes? Esta é a pergunta que a anti-totalização da pesquisa de Lins da Silva não respondeu – e diga-se, para ser justo, que nem era esse o seu objeto.

Mas é difícil que João Pereira Coutinho conheça o trabalho de Lins da Silva pregresso à posição de ombudsman da Folha que ele ocupa hoje. Não sei também se Coutinho conhece Hall, ou Raymond Williams, ou Jesús Martin-Barbero, ou John B. Thompson, ou Bernard Berelson, ou qualquer um dos inúmeros pesquisadores que já produziram pesquisas confiáveis sobre a recepção. Coutinho não é um comunicólogo, mas tem uma carta livre da Folha de S. Paulo para falar sobre o que bem entende como se fosse um conhecedor. É o que o escritor Furio Lonza chamou de caso de polícia, num texto que uma vez publicou na Revista Superinteressante, a respeito das pessoas que escrevem sobre o que não conhecem.

Na abertura de seu ótimo As Razões do Iluminismo, Sérgio Paulo Rouanet alerta para o perigo desta relativização. Não é Bach que ameaça a literatura de cordel, é a novela das oito, diz o filósofo. Coutinho acha que as “boas influências” (agora as aspas são minhas) da televisão tendem a alçar o povo a um estágio superior, aquele de se imitarem as elites a ponto de ficar parecido com elas.

Não é o único que relativiza a perversidade, tendendo a perdoá-la. No mestrado, cometi o equívoco, um dos maiores da minha vida, de procurar uma orientadora que era, descobri mais tarde, uma defensora entusiasta das telenovelas. Seus orientandos, menos eu, também. Não é preciso dizer que o saco encheu e o meu projeto fez água. Conheço muita gente que adora novelas, mas entrar em campo para competir sozinho contra o filistinismo (expressão do Coutinho) de um time inteiro pretensamente intelectualizado é covardia.

Em todo caso, o que se pode constatar é que, de repente, Sílvio Abreu, Benedito Rui Barbosa e (arreda capeta, pé-de-pato, mangalô três vezes) Glória Perez têm um status maior entre certa intelectualidade do que Machado, Graciliano e Guimarães. Antes de dever-se à qualidade artística do trabalho daqueles autores, este status deve-se ao poder de influência deles sobre a cultura brasileira dos dias de hoje, aquela que é representada pelo cidadão comum, que nunca dançou o bumba-meu-boi. Pegue uma varredora, uma recepcionista, uma secretária ou uma executiva e veja se ela é mais influenciada pelo Walter Negrão ou pelo Manuel Bandeira. Depois disso, chore. A intelectualidade, assim, dá lustro de respeito à telenovela.

Mas pior mesmo é a auto-indulgência com que Coutinho defende a televisão: antes de falar de suas maravilhas, ele diz que, não sendo um filisteu, não assiste à TV! Não dá para saber se está simplesmente mentindo ou reconhecendo que está discursando sobre um objeto de que não entende. Nos dois casos, incorreu em desonestidade intelectual. Essa a miséria da nova mídia brasileira.

E quanto a Bach? Bah!

PS. Mas é bom lembrar que há críticos de ontem e hoje – entre eles Eugenio Bucci e Telmo Martino – que seguem fazendo um bom trabalho.

PPS. Na foto, o elenco da Globo se prepara para enfiar um pouco de cultura na cabeça dessa gente ignara.

Um debate interminável

1/02/10

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Voltando de curtas e merecidas férias, descubro que há dez dias a Folha de S. Paulo publicou minha carta criticando um artigo do jurista Ives Gandra Martins, que atacava a proposta de Lei de Direitos Humanos enviada pelo Governo Federal ao Congresso. Mais há a dizer sobre o artigo (e muito mais sobre a proposta), mas deixo aqui apenas a reprodução das palavras de Gandra e das minhas, além de outras repercussões publicadas pela Folha, para que os leitores do blogue (todos os dois e meio) possam formar sua própria opinião.

A única informação a acrescentar é um repeteco de muito do que eu já disse aqui: a tortura é crime contra a humanidade, sujeito a julgamento por tribunal internacional, e portanto imprescritível. Aliás, foi exatamente o que disse o presidente da OAB, Cezar Britto.

Aqui vai o artigo:

Guerrilha e redemocratização

 Ives Gandra da Silva MartinsOREGIME de exceção, em que o Brasil viveu de 1964 a 1985, foi encerrado, não por força da guerrilha -que terminou, de rigor, em 1971-, mas principalmente pela atuação da OAB, à época em que figuras de expressão a conduziam, como Raymundo Faoro, Márcio Thomaz Bastos, Mário Sérgio Duarte Garcia e Bernardo Cabral, e de parlamentares como Ulysses Guimarães, Mário Covas e Franco Montoro, entre outros.
Tenho para mim que a guerrilha apenas atrasou o processo de retorno à democracia, pois ódio gera ódio, e a luta armada acaba por provocar excessos de ambos os lados, com mortes, torturas e violências.
Muitos dos guerrilheiros foram treinados na mais antiga e sangrenta ditadura da América (Cuba) e pretendiam, em verdade, apenas substituir uma ditadura de direita por uma ditadura de esquerda.
Os verdadeiros democratas, a meu ver, foram aqueles que, usando a melhor das armas, ou seja, a palavra, obtiveram um retorno indolor à normalidade, sem mortes, sem torturas, sem violências.
A Lei da Anistia, proposta principalmente pelos guerrilheiros, foi um passo importante para a redemocratização, pois possibilitou àqueles que preferiram as armas às palavras a sua volta ao cenário político. A lei, à evidência, pôs uma pedra sobre o passado, sepultando as atrocidades praticadas tanto pelos detentores do poder, à época, como pelos guerrilheiros. E foram muitas de ambos os lados.
Num país em que o ódio tem pouco espaço -basta comparar as revoluções de nossos vizinhos com as do Brasil para constatar que o derramamento de sangue aqui foi sempre muito menor-, tal olhar para o futuro permitiu que o Brasil ressurgisse, com uma Constituição democrática.
Nela, o equilíbrio dos Poderes possibilitou o enfrentamento de crises, como o impeachment, a superinflação, os mais variados escândalos, entre os quais o do mensalão foi o maior, e a alternância de poder sem que se falasse em rupturas institucionais. Vive-se -graças à redemocratização voltada para o futuro, e não para o passado- ambiente de liberdade e desenvolvimento social e econômico próximo ao de nações civilizadas.
O Programa Nacional de Direitos Humanos, organizado por inspiração dos guerrilheiros pretéritos, pretende, todavia, derrubar tais conquistas, realimentando ódios e feridas, inclusive com a tese de que os torturadores guerrilheiros eram santos, e aqueles do governo, demônios.
Essa parte do plano foi corrigida, tendo o presidente Lula admitido que, se for criada a comissão da verdade, há de apurar tudo o que de excessos foi praticado naquela época -por militares e guerrilheiros. Tenho a impressão de que isso não será bom para a candidata Dilma Rousseff.
O pior, todavia, é que o programa é uma reprodução dos modelos constitucionais venezuelano, equatoriano e boliviano, todos inspirados num centro de estudos de políticas sociais espanhol, para o qual o Executivo é o único Poder, sendo o Judiciário, o Legislativo e o Ministério Público Poderes vicários, acólitos, subordinados. No programa, pretende-se fortalecer o Executivo, subordinar o Judiciário a organizações tuteladas por “amigos do rei”, controlar a imprensa, pisotear valores religiosos, interferir no agronegócio para eliminá-lo, afastar o direito de propriedade, reduzir o papel do Legislativo e aumentar as consultas populares, no estilo dos referendos e plebiscitos venezuelanos, além de valorizar o homicídio do nascituro e a prostituição como conquistas de direitos humanos.
Quem ler a Constituição venezuelana verificará a extrema semelhança entre os instrumentos de que dispõe Chávez para eliminar a oposição e aqueles que o PNDH-3 apresenta, objetivando alterar profundamente a lei maior brasileira.
O programa possui, inclusive, “recomendações” ao Judiciário sobre como devem os magistrados decidir as questões prediletas do grupo que o elaborou, à evidência, à revelia de toda a população e do Congresso. Pela má qualidade do texto e pelo viés ideológico ditatorial, dificilmente essas propostas passarão no Legislativo. Se passarem, creio que o Supremo barrará tudo aquilo que nele fere as cláusulas pétreas constitucionais e os valores maiores em que a sociedade se lastreia.
Certa vez, ao saudoso crítico Agripino Grieco um amigo meu (Dalmo Florence) apresentou livro de poesia recém-lançado, pedindo-lhe a opinião. No dia seguinte, Agripino disse-lhe: “Dalmo, li o livro de seu amigo e aconselho a queimar a edição e, em caso de reincidência, o autor”. Sem necessidade de adotar a segunda parte do conselho agripiniano, a primeira seria admiravelmente aplicável a esse programa de direitos desumanos.
IVES GANDRA DA SILVA MARTINS, 74, advogado, professor emérito da Universidade Mackenzie, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra, é presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio. 

E, aqui, as repercussões publicadas em 23/1. A minha é a segunda:

Direitos humanos
“Quando tudo parece estar se perdendo nesse mar de corrupção, hipocrisia e contrassenso, surge, mais uma vez, a voz corajosa e idônea de Ives Gandra Martins (”Guerrilha e redemocratização”, “Tendências/Debates”, ontem). Tudo o que o articulista escreveu sobre o Programa Nacional de Direitos Humanos é absolutamente verdadeiro.
O PNDH é um amontoado de absurdos e afrontas aos direitos dos cidadãos brasileiros. É o resultado de “acordos” espúrios com pessoas e entidades que muito longe estão de representar os nossos direitos e interesses e os interesses do país e que passa, inclusive, pela institucionalização do assassinato de crianças no ventre materno.
Então concluo, concordando com o articulista, que o ideal é mesmo queimar essa excrescência, já que não podemos (ou não devemos) “queimar” o seu autor.”
GISELA ZILSCH, advogada (São Paulo, SP)

“O artigo do nobre jurista Ives Gandra Martins é cuidadoso na escolha dos termos. Chama golpe de “revolução” e ditadura de “regime de exceção”.
Compara os torturadores que agiram a serviço do regime -em nome, portanto, de um poder que representava a coletividade brasileira, mas que não lhes era legítimo- aos opositores que buscaram depor a ditadura. A estes chama de “guerrilheiros”, embora não conste que Vladimir Herzog, Geraldo Vandré, Zuzu Angel ou Heleni Guariba tenham praticado guerrilha nenhuma (mas torturados eles foram).
Não mostra a mínima preocupação com pais e filhos que até hoje não puderam enterrar seus filhos e pais. Diz que a OAB e o MDB foram os principais articuladores do fim do regime, deixando de lado a própria propaganda negativa que a tortura contra os “guerrilheiros” rendia ao governo, bem como os movimentos operário e estudantil. Ao final, sugere que queimar livros seria uma solução democrática, prática, como sabemos, usual na Alemanha dos anos 1930.”
LÉO BUENO (Santo André, SP)

“Após tanta polêmica em relação ao plano de direitos humanos, resolvi, paulatinamente e ao longo dos últimos dias, lê-lo na íntegra. Percebi o quanto superficial foi o tratamento dado pela Folha à questão e o quanto, a meu ver, alguns comentários se mostram equivocados.
Há mais pontos no plano do que foi até agora raramente discutido. Recomendo a todos os leitores que façam o mesmo, a fim de embasar suas opiniões. E recomendo que o jornal aborde o assunto com maior profundidade e que, se for preciso, dado a importância e extensão do decreto, destine um caderno especial a essa questão importantíssima.”
WADY ISSA FERNANDES (São Paulo, SP) 

No dia seguinte saíram mais duas cartas sobre o debate: 

Direitos humanos
“Incrível! Esse é o adjetivo que tenho para o artigo “Guerrilha e redemocratização” (Tendências/Debates”, 22/1), de Ives Gandra da Silva Martins.
Que o professor Ives Gandra sempre foi vinculado ao pensamento conservador da direita brasileira não é nenhuma novidade.
A surpresa fica com o festival de sandices contidas em seu artigo, coroado com a proposta de lançar à fogueira o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos e o seu autor, o presidente Lula, no mais requintado estilo da Santa Inquisição.”
RENATO AFONSO GONÇALVES (São Paulo, SP) 

“Fala-se constantemente em indenizar as “vítimas” do movimento de 1964. Não se fala, entretanto, da indenização devida às famílias dos 126 militares mortos, às vezes covardemente, no período e que apenas cumpriam o seu dever. Já dizia Roberto Campos que uma revolução não é um convescote de escoteiros. Há vítimas dos dois lados.
Deve-se lembrar que a revolução de 64 foi um movimento oriundo da sociedade civil, que exigia a volta do país à normalidade, pois imperava a desordem e as greves se sucediam até em setores vitais, como água, esgotos e ferrovias.
Havia a ameaça de uma ditadura de esquerda.”
MARLI MIRA HOELTGEBAUM (São Paulo, SP)
 

A coerência e o oportunismo na questão dos direitos humanos

13/01/10
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Coerência – Por tristes que a notícia nos tenha deixado, não se pode negar o fato de que a morte de Zilda Arns teve algo de simbólico, talvez de heróico e, por tudo isso mesmo, de com a vida que ela levou. Dona Zilda poderia ter passado os últimos anos como os passaram certas figuras outrora míticas, hoje humanizadas, vagando ao sabor da onda da política partidária brasileira, sentada no fresco de sua casa a emitir pitacos políticos que levassem a opinião pública mais para a direita ou mais para a esquerda. É bem verdade que seu filho senador tem um partido, uma posição. Já a mãe teve um trabalho e escorou-se tão somente nele. Não há modo mais heróico de morrer.Ela desapareceu num terremoto que deve causar arrepios aos crentes. Também este tremor no Haiti parece ter peso simbólico: ao contrário do que disse Joca, o do Adoniran, Deus não dá o frio conforme o cobertor, e o sismo atacou e matou no país mais pobre da América. Matou também a humanitária Zilda Arns.

É claro que Deus, se existe, não tem nada a ver com isso: os haitianos são vítimas, e alguns são vilões, de uma das inúmeras situações inacreditavelmente desumanas criadas, justamente, pelos seres humanos – esse câncer do universo, nas palavras do Millôr. Não estou falando do terremoto, e sim da miséria absoluta em que está mergulhado do país dos Docs, o Papa e o Baby, e que os priva de ter um sistema mínimo de prevenção a cataclismas.

Zilda Arns é, desde sempre, uma heroína apolítica, da linhagem de Dom Helder e do Betinho.

***
 

Oportunismo – Se tudo o que acontece na Terra for um sinal de Deus, diríamos, assustados, que o Velho é, como diz um texto do Veríssimo, um conservador. No mesmo momento em que o tema dos Direitos Humanos volta à pauta, a natureza dá uma forcinha contra ele.

Sobre a pauta, aliás, há muito tempo não leio um texto tão bom quanto este abaixo, assinado pelo Elio Gaspari. Creio mesmo que gente como ele e o Jânio de Freitas ainda escapa da crise quase infinda que vive a grande mídia. Alguns dos meus colegas, que como eu têm defendido o governo federal, reclamam, porque Jânio e Gaspari não estão entre os entusiastas do Lula. Mas eu digo: são jornalistas, eis tudo. Quem dera a nova geração se espelhasse neles. Infelizmente, o jornalismo em geral está muito longe disso.

Sem mais comentários. Segue o texto, que fala por si.

Perigo à vista: vivandeiras do tucanato

A EXPRESSÃO “VIVANDEIRA” veio do marechal Humberto Castello Branco, há 45 anos, no alvorecer da anarquia militar que baixou sobre o Brasil a treva de 21 anos de ditadura. Referindo-se aos políticos civis que iam aos quartéis para buscar conchavos com a oficialidade, ele disse:

“Eu os identifico a todos. São muitos deles os mesmos que, desde 1930, como vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bolir com os granadeiros e provocar extravagâncias ao Poder Militar”.

Desde o início da controvérsia provocada pelo Programa Nacional de Direitos Humanos, sentia-se o perfume da sedução tucana pelo flerte com a figura abstrata dos militares aborrecidos com a ideia de esclarecer a responsabilidade por crimes praticados durante a ditadura. Uma palavrinha aqui, outra ali, coisa cautelosa para uma corrente política que pretende levar à Presidência da República o governador José Serra, que pagou com 15 anos de exílio o crime de ter presidido a UNE. Serra e os grão-tucanos conhecem um documento de 1973, preparado pela meganha enquanto ele estava preso ou asilado no Chile. A peça vale por uma anotação manuscrita: “Esta é a súmula do que existe sobre o fulano. Como vês, trata-se de “boa gente” que bem merece ser “tratado” pelos chilenos”. A rubrica do autor parece ter três letras. (Ao menos cinco brasileiros foram “tratados” pelos chilenos nas semanas seguintes ao golpe do general Pinochet.) Será que Serra não tem curiosidade de saber quem queria “tratá-lo”?

A vivandagem tucana explicitou-se numa entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao repórter Gary Duffy. No seu melhor estilo, disse a coisa e seu contrário. Referindo-se aos itens do programa de direitos humanos que cuidam do estabelecimento de uma comissão da verdade, o ex-presidente afirmou o seguinte:

“Este não é um assunto político no Brasil, mas uma questão de direitos humanos, o que para mim é importante, mas o perigo é transformar isso em um assunto político”.

Assunto político, o desaparecimento de pessoas jamais deixará de ser. Não há como dizer que seja um tema climático. O ex-presidente foi adiante e viu na iniciativa de investigar os crimes do Estado um fator de “intranquilidade entre as Forças Armadas”.

Pode vir a ser um fator de indisciplina. “Intranquilidade entre as Forças Armadas”, só se fosse uma ameaça às fronteiras nacionais ou às reservas de petróleo do mar territorial. Fernando Henrique Cardoso já sentiu o gosto amargo da vivandagem quando ampliou a Lei da Anistia e reconheceu a prática, pelo Estado, dos crimes da ditadura. Nesse sentido, na busca da verdade e da compensação das vítimas (reais) da ditadura, deve-se mais a ele e a tucanos como José Gregori do que a Lula e a organizadores de eventos como Tarso Genro e Paulo Vannuchi.

Não se reconhece em Fernando Henrique Cardoso do ano eleitoral de 2010 o presidente de 1995 a 2002. Muito menos o militante das causas democráticas, visto pela tigrada como um “marxista violentíssimo”. Felizmente, pode-se garantir que FHC não sentou praça na tropa da ditadura. Infelizmente, podendo mostrar pelo exemplo que há uma diferença entre os tucanos e as vivandeiras, escolheu o cálice do oportunismo.

Direitos humanos, cinema, tudo para reativar o blog

11/01/10
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E então a grande imprensa, que há 7 anos faz uma oposição à direita do Governo Lula, de repente começou a fazer uma oposição à esquerda dele. Não estão em jogo as verbas publicitárias, as privatizações versus as estatizações nem a posse de José Serra na presidência. O que está em jogo é um assunto tão batido quanto ainda misterioso: a punição aos torturadores do Regime Militar.

Se você não leu: o governo tentou lançar mais um Programa de Direitos Humanos que investigasse, enfim, os torturadores. A resistência veio dos setores de praxe: militares anônimos e direitistas empedernidos. Lula, sempre conciliador, está ensaiando uma volta atrás para não encurralar o setor, que certamente teria expostos os numerosos e gigantescos esqueletos em seus armários. A imprensa agora não reclama do programa de Lula, mas dessa volta atrás. O secretário ameaça com sua demissão, coisa que afligiria pouca gente.

Para punir os torturadores, seria necessário revolver os tais arquivos secretos, que alguns sabem onde estão, mas não falam. As desculpas para não abri-los vão desde os segredos de Estado que deixariam o Brasil vulnerável até o volume de bens e recursos saqueados por nosso país varonil na Guerra do Paraguai, lá se vai um século e meio.

A tortura – todos sabem, mas ninguém fala – é uma prática constante de setores oficiais desde que o Brasil é Brasil, ou desde que a humanidade existe. Depois do Golpe de 1964, as armas tiveram cursos com agentes franceses e americanos para aprender a torturar direito, e, como sói acontecer, nem assim aprenderam.

Mas a tortura, do ponto de vista pragmático, deu certo, e vem dando certo, de novo, desde que o mundo é mundo. Deu certo porque continua sendo prática corriqueira em corrós, em delegacias e em batalhões do mundo todo, Brasil inclusive. As vítimas nem sempre cometeram crime nenhum e quase sempre são pobres. Algumas confessam os crimes que não cometeram, outras os que cometeram, mas seus advogados, quando têm, quase sempre conseguem a sua libertação na Justiça, já que elas confessaram sob coação. A tortura é muitas vezes desculpa para não investigar.

Nesse meio tempo, há centenas de famílias que estão há 30 anos sem saber o que aconteceu com seus parentes. A questão não é tão política quanto se prenuncia. É humana, eis tudo.

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Se você procura algo mais do que escapismo no cinema, não se deixe enganar pelo que têm dito alguns críticos: Avatar é puro lixo tecnológico. Aliás, é mais do mesmo do que seu diretor, o poderoso James Cameron, faz há 20 anos. Investe pesadamente nos efeitos especiais e não liga muito para bobagens como enredo, atuação, essas coisas.

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Por outro lado, Atividade Paranormal é um exercício de tensão como há muito não se via no cinema. Compare o quanto seus produtores gastaram para fazer o filme com o quanto foi gasto com Avatar. A palavra “desperdício” vem logo à mente.
Sou um fã de (bons) filmes de terror e de fantasia. Faço listas, vejo filmes antigos, baixo os que não foram lançados no Brasil. Breve, aqui, haverá uma lista dos melhores filmes em qualquer gênero na década, segundo eu, e outra dos melhores filmes de horror da década, segundo idem. Foi um ótimo período para o medo. Teve O Chamado, O Grito, Rec e algumas pérolas independentes. Desde os anos 1970 não tínhamos uma lista tão boa.

As dez melhores músicas tristes do rock’n’roll

2/12/09

Conhecemos uma vez um sujeito num show, A Nice Weekend in London, que nos disse que as canções tristes – the miserable songs – são tradicionalmente melhores do que as canções alegres do rock. Claro que esse não é um axioma, pelo contrário: o rock’n’roll surgiu de manifestações festivas, nos clubes de rhythm’n’blues de New Orleans provavelmente, ou no violão alegremente amaldiçoado de Robert Johnson cantando They’re Red Hot numa encruzilhada, nos anos 1930.

Mesmo assim, nós rimos alto com a declaração de nosso colega de Manchester, justamente porque nos identificamos com ela. Para nós, as miserable songs soam mais profundas – porque donas de um conhecimento misterioso e indizível – do que as superficiais happy songs.

Então, meio de sarro, meio a título de elegia, resolvi botar no papel quais eu considero as dez melhores canções tristes do rock. São soturnas, angustiadas, tristes, melancólicas, de uma melodia tão doída que se prestam como poucas à função que cabe a uma boa canção: deixar-nos, paradoxalmente, mais felizes.

berlinloureed.jpg   lou-reed-magic-and-loss.jpg   Lou Reed – The Kids e Magician – Duas músicas de um mesmo autor para abrir a lista. Lou Reed não é apenas o maior poeta do rock’n’roll – na opinião deste que vos escreve, melhor do que Jim Morrison, Bob Dylan, John Lennon, Nick Cave, Connor Oberst –, mas também um profundo psicólogo, que aprendeu a conhecer a humanidade por meio da convivência com o que há de mais baixo no ser humano. The Kids é uma canção do mais clássico de seus álbuns solo, Berlin, e já abre prenunciando uma tragédia: uma mãe, que socialmente não é considerada lá uma grande mãe, será separada de seus filhos. They’re taking her children away / Because they say she was not a good mother. O resto é a descrição da tragédia, culminando num efeito que seria muito imitado nas décadas seguintes: um dos filhos da moça chora. The Kids é uma música barra-pesada que combinou com a década em que foi feita, os anos 1970. Já Magician é uma canção dos anos 1990, doce. É a despedida a um amigo que não quer ir embora. Todo o disco em que ela consta, o fantástico Magic and Loss, é o adeus a dois amigos de Lou Reed. Um deles definhou no hospital, vítima de câncer, e há uma seqüência de canções em que o bardo descreve desde o diagnóstico da doença até a conversão do doente em cinzas. Magician está bem no meio desta seqüência. Nela, o doente pede uma mágica que o faça levitar e diz que não tem nada a ver com esse corpo doente. Que por dentro ele é jovem e cheio de vida, que tudo o que quer é contar até cinco, virar-se e perceber que já se foi, vencer a tempestade e levantar na bonança.

leonard-cohen-songs-of-love-and-hate.jpg   Leonard Cohen – Famous Blue Raincoat – Uma vez escrevi um conto misturando o enredo desta canção com as famosas encenações da Commedia Dell’Arte. O pessoal da Mojo Books gostou e resolveu publicar naqueles livros sobre rock’n’roll que eles têm (você pode conseguir um exemplar aqui). Infelizmente o conto era muito fantasioso, já que usava uma das manias da Commedia Dell’Arte que não se deu muito bem com o século XX: a de os atores trocarem de personagens antes da conclusão da história. Então o último capítulo tinha uma inversão dos personagens sem qualquer explicação. O Danilo, da Mojo, achou que o conto ficou muito difícil de entender, e eu acabei aceitando mudar o final, deixando ele mais palatável. Gosto mais da versão original, que não é feita para filisteus. Famous Blue Raincoat soa autobiográfica, já que termina com a própria assinatura de Leonard Coen, um poeta beatnik tido como cantor folk e também um dos melhores letristas do rock. Ele escreve uma carta para aquele que um dia foi seu melhor amigo e que acabou roubando-lhe a garota.

joy-division-sustance.jpg   Joy Division – Atmosphere – Canção que acabou sendo o réquiem perfeito para o seu autor, Ian Curtis, que, deprimido, iria se matar em 1980. Os realizadores de Control, filme que conta a história da vida de Curtis, usaram-na justamente na cena em que é anunciada a sua morte. O Joy Division começou como banda punk e rapidamente criou um estilo só dela, de maneira que os críticos da época, aturdidos, inventaram o termo Positive Punk, embora a música do Joy fosse mais negativa do que a do Clash, por exemplo. Há dois videoclipes de canções do Joy: um é da famosa Love Will Tear us Apart, outro é de Atmosphere. Foi feito pelos colegas de banda de Ian Curtis, também conhecidos como New Order.

bauhaus-skysgoneout.jpg    Bauhaus – All We Ever Wanted Was Everything – O Bauhaus era conhecido como uma banda triste, até que um dia Peter Murphy, seu líder e vocalista, protestou contra a pecha. “As pessoas não vêem o quanto nossa banda tem de irônica”. É verdade. Se você analisar os cinco discos e incontáveis singles da banda, vai encontrar até reggae no meio. O problema eram os temas do Bauhaus: goblins e bruxas, máscaras mortuárias, o rei Volcano, essas coisas, que, somadas, acabaram resultando numa nova tendência da música, o gótico. Só que o rock gótico de hoje é um emaranhado insuportável de clichês, enquanto que o Bauhaus, ouvido três décadas depois, ainda soa atual e cheio de vitalidade. Murphy e seus colegas de faculdade tinham realmente um extenso leque de influências, dentro do qual a literatura de Alan Poe e H. P. Lovecraft era um detalhe. Há canções dedicadas ao teatrólogo Antonin Artaud e ao cineasta Jean Vigo. Mas, quando você ouve All We Ever Wanted, fica achando que a vocação do Bauhaus era mesmo a tristeza – ou você acha que comer “geléia, sanduíches de metro e arame farpado” parece uma coisa agradável? 

Siouxsie and the Banshees – Strange Fruit – Eu não queria colocar mais uma banda do pós-punk britânico nesta lista, até porque não sou o maior fã da Suzie Sioux, mas esta canção especificamente atou-me as mãos. A música original foi composta como um poema por Abel Meeropol e gravada como canção de jazz por Billie Holiday em 1939. Alguns críticos, como o Álvaro Pereira Junior, consideram-na a mais triste canção de todos os tempos, e ocorre que a Siouxsie, uma banda de rock, regravou-a – ouça e veja como os críticos têm razão. A letra fala de uma estranha fruta pendurada nas árvores no sul dos EUA: nada mais do que os corpos dos negros submetidos a linchamento, enforcados apenas por serem negros. Outros artistas regravaram a canção: UB40, Tori Amos, Cocteau Twins, Diana Ross. A da Siouxsie é a melhor.

beth_gibbons__and__rustin_man-out_of_season.jpg   Beth Gibbons & Rustin Man – Misteries – Já esta música, entoada pela cantora do Portishead, é toda clima. É triste, mas não traz um clima pesado, pelo contrário: sua inspiração parecem ter sido as músicas célticas cantadas por e para fadas e duendes. Fala dos mistérios do amor, e a voz de Beth Gibbons até soa doída, mas o coral de fundo, com algo de mágico, chama mais atenção. Há um clipe dela no YouTube.

beatles_revolver.jpg    Beatles Eleanor Rigby – Se tinha de haver uma canção dos Beatles na lista, havia de ser essa, que pertence justamente ao momento em que os fab four deixavam de ser uma bandinha de rock para entrar para a História como a maior banda de todos os tempos, tendo seus membros ganhado consciência e concatenação. A letra é assinada por Lennon & McCartney, mas é claro que apenas John Lennon escreveu-a – Paul McCartney era mais um craque das melodias. É uma das primeiras vezes que o rock atreveu-se a falar sobre a solidão com profundidade. E o faz por meio de duas pessoas, a personagem-título e o padre McKenzie. Os dois vivem solitários, até que Eleanor morre e só o padre vai ao seu sepultamento. No final, ele limpa a terra das mãos e “ninguém é salvo”, diz a letra.

radiohead_-ok_computer_1997.jpg   Radiohead – Exit Music (For a Film) – Fiz uma pesquisa na internet antes de escrever este post e constatei que nove entre dez listas de músicas tristes contém uma canção do Radiohead – geralmente Creep ou Fake Plastic Trees. São listas muito heterogêneas, de maneira que é engraçado encontrar Radiohead lá no meio. Tem uma que elenca músicas do Metallica, dos Scorpions e do Bon Jovi e, junto, entra o Radiohead. Tem outra que chega ao cúmulo de botar Michael Jackson e Madonna – com Radiohead. O Radiohead é um consenso da tristeza musical no mundo. Escolhi essa canção do terceiro álbum, OK Computer, por um motivo até meio subjetivo: ela é mais triste do que Creep e Fake Plastic Trees. Foi efetivamente concebida para um filme – o diretor Baz Luhrmann pediu uma canção que embalasse o seu fraco Romeu + Julieta. Thom Yorke e companhia fizeram essa música, que acabou entrando só nos créditos, talvez porque fosse jogar o clima do filme para baixo. Teria sido interessante ver Romeu correndo com Julieta sacada abaixo ao som desta canção. Ela é toda lenta, com muito delay, o efeito de eco do qual Tom Yorke abusou em OK Computer. No final, Romeu e Julieta gritam para os patriarcas Montecchio e Capuleto: “we hope that you choke”. Esperamos que você esgane.

dears-no-cities-left.jpg   The Dears – Warm and Sunny Days – Esta é a preferência mais pessoal da lista, uma típica música dor-de-cotovelo desta banda canadense que meu amigo Reinaldo Andreata nomeou a melhor da década – e eu concordo. Saca só o trecho: “Eu fico tão paranóico / Eu tenho de pensar em dias quentes e claros / Imaginando e planejando o curso de nossas vidas / Mas isto é o mais longe / A que estou disposto a ir / Planejar o resto de nossas vidas”. Tudo isso com guitarra, baixo, bateria – e teclado e cordas.

Quando a luz caiu

12/11/09

 8520906982_g.jpg   A pergunta básica é: onde você estava quando a luz apagou? Eu estava voltando de uma videolocadora de onde pegara um filme, destes lançamentos que você tem de devolver no dia seguinte. Ia ver o filme na terça mesmo, claro, que era o único tempo que tinha disponível, de maneira que o black-out me acarretou o prejuízo de pelo menos uma locação. Mas, que diabo!, o filme podia até ser ruim, daqueles tão ruins que a gente paga para não ter de ver, e então quem sabe aquilo foi um apagão providencial, pelo menos para mim.

No mais, aproveitamos para matar um sorvete que estava no congelador e que ia fatalmente virar uma vitamina de leite conforme o tempo passasse e a luz não voltasse. Demos cabo dele impiedosamente – e dessa vez sem culpa: afinal, para o sorvete, era ser tomado ou ir pro lixo. Aproveitei também para contar uma história para o meu filho dormir, uma história de vampiros e bruxas. Na hora em que o Drácula ataca o pescoço da mocinha, ele caiu no sono e começou a roncar. Gosto de pensar que ele é simplesmente mais corajoso do que eu sempre fui, mas isso é provavelmente um equívoco; mais provável é que eu contando histórias seja meio entediante mesmo.

O tempo foi passando, a luz que estava em meia-fase caiu de vez, e fui ficando meio aflito de pensar em hospitais e indústrias, lugares em que a falta de energia, principalmente por muito tempo, pode ser uma questão de vida ou morte. Ato contínuo, refleti sobre o tempo dos lampiões, aquele em que as pessoas sobreviviam o tempo todo sem energia elétrica, sem DVDs e sem sorvete no refrigerador. Os lampiões serviam para o básico, um bom livro ou uma conversa. Os hospitais não tinham as máquinas de fazer pi, mas faziam o seu melhor com sangrias, quinino y otras cositas mas. As pessoas viviam menos, mas não necessariamente menos felizes.

Agora vivemos na época da globalização, representada sobretudo pela evolução das luzes e dos meios de comunicação, com os quais falamos instantaneamente com os EUA, a França e o Japão. A cidade grande, com suas luzes artificiais – o que outrora eram luzes de néon –, era, desde Baudelaire e particularmente desde Benjamin, o símbolo máximo da modernidade. Da mesma maneira, Baudrillard identifica Tóquio, com sua superexposição de marcas luminosas e lasers, como o símbolo máximo da pós-modernidade, se é que ela existe.

Pois bem: as luzes de São Paulo e os lasers de Tóquio dependem de alguns fios de Itaipu, ou da usina de energia japonesa, seja ela qual for. Em outras palavras, a modernidade, desde seu advento, está literalmente por um fio. Uma queda de energia no Paraná reduziu a nada as comunicações que fazem com que  a globalização seja globalização. Se alguém tropeça no fio em Itaipu, a modernidade já era, ainda que metaforicamente.

Nós, crianças empolgadas com o mundo ultra-rápido, de repente passamos a depender do savoir faire dos que viveram em outros tempos, ou pelo menos dos que se acostumaram a viver no tempos dos outros. Os celulares, com suas lanternas, ajudaram a andar pelos quartos da casa, mas quanto tempo duraria uma bateria de celular que não pára de ser usada? Um notebook e um modem manteriam o contato com o resto do mundo, mas a bateria do notebook tem autonomia de duas horas. O que funcionou como meio de comunicação, de novo, foi o velho e bom radinho de pilhas.

Na terça-feira, o radinho de pilha foi uma espécie de Burrinho Pedrês, do conto de Guimarães Rosa, um animal velho e teimoso que enfrenta e vence a enxurrada com um velho em seu lombo, ao passo que os outros cavalos e cavaleiros, fortes e arrogantes, são arrastados e mortos. Ao descrever a situação passo a passo, o radinho serviu para lembrar que toda a infra-estrutura que nos cerca e que nos simboliza não deixa de ser um meio, e não um objetivo. O objetivo, o fim, o que realmente vale a pena é, no fim e ao cabo, matar um belo sorvete e contar uma boa história para seu filho ninar.

O muro invisível

10/11/09

muroberlim1.jpg   hungry-child.jpg 

TeseHá certo tom triunfalista nas análises que tenho visto sobre os 20 anos da queda do Muro de Berlim. São análises que incidem sobre um fato de duas décadas atrás, mas o tom, este incide sobre hoje mesmo, é extremamente atual. A provocação contra os antigos comunistas não tem como público-alvo eles, os antigos comunistas, mas os esquerdistas de hoje. E claro que tal triunfalismo tem mais força em terras governadas pela esquerda, como o Brasil.

Até então, no Ocidente, ninguém sabia direito o que vinha ocorrendo nos países da chamada cortina de ferro. Havia a certeza de que Leonid Brezhnev era um tosco sanguinário e de que Nicolau Ceausescu era um verdadeiro carniceiro. Tinha-se, por outro lado, certa simpatia pela figura do Marechal Tito, que, além de ter instalado o socialismo na Iugoslávia, manteve unidos o país, suas etnias e religiões. De certa maneira, o comunismo, tal como instalado no oriente europeu, parecia defensável.

Quando Gorbatchev surgiu com sua Perestroika, porém, quase todo mundo saudou a novidade, mesmo os comunistas, que estavam cansados de tanto radicalismo – ademais, todo mundo tinha medo da Guerra Fria e alguém precisava ceder antes que o mundo acabasse.

Os estados comunistas se desmontaram e o mundo descobriu muita coisa de que já desconfiava. Por exemplo: quando assumira, em 1958, Nikita Khrushchev denunciou os desmandos de Stalin, mas foi preciso o comunismo cair para se ter uma idéia dos números destes desmandos – e fala-se hoje em até 20 milhões de mortos com o expurgo stalinista.

Quando o comunismo caiu, o capitalismo foi quase gramscianamente adentrando os países do leste europeu e levou alívio às populações. Eram povos que viviam em nível mais ou menos igual entre si (à exceção dos membros do Partido, que eram poucos e tinham muitas mordomias), só que era um nível bem baixinho. O capitalismo lhes permitiu comer no MacDonalds, apreciar chocolates Nestlé, andar de Ford e assistir a Titanic. Deu-lhes emprego também, embora os jogasse num mercado competitivo em que eles já entraram em desvantagem.

Em suma, o capitalismo salvou os povos assolados pelo comunismo.  

AntíteseSem URSS, o mundo pareceu caminhar por um tempo em busca da lógica do sistema político-econômico único, provocando intelectuais apressados, como o americano Francis Fukuyama, a proclamar o fim da História – algo como “é isto, nada mais vai mudar”. Só que mudou, e rápido. Primeiro, ganhou força um até então coadjuvante inimigo dos EUA: o terrorismo, apavorante porque se alimenta do anonimato. Depois, aconteceu o que os marxistas já sabiam há pelo menos 150 anos: o capitalismo entrou em crise, e em 2008 o mundo estava, de novo, à beira de um ataque de nervos.

Faz um século e meio que Marx alertou que o capitalismo vive de ciclos, crise versus prosperidade, até que um dia, diz-se, haverá uma crise final e um novo sistema surgirá, sabe-se lá qual. Marx estava certo, e este não foi o seu único acerto. Outro dava conta de que a História da humanidade é a História das lutas de classes, e foram as outras classes que não deixaram os EUA e o mundo descansar da briga que venceram com o comunismo.

Não era o comunismo russo, afinal, o responsável pelo flagelo da fome na África e na América Latina. Não era o responsável pela corrupção dos petrodólares, que redundou em guerras e destruição, nem pelas ditaduras torturadoras e assassinas da América Latina, com exceção da de Cuba. Não era responsável pelo desmoronamento das matas primárias, pelo buraco na camada de ozônio ou pelo efeito-estufa.

A queda do muro físico de Berlim descortinou um outro muro, invisível, mas bem perceptível, que separa a riqueza da miséria. E a evolução econômica dos últimos 15 anos também deixou claro que, se o homem continuar mexendo na natureza no ritmo em que está – e só o faz em razão do capitalismo –, a vida no planeta vai acabar, tal como acabaria na hipótese de uma explosão nuclear.

Enfim, o capitalismo entrou em mais uma crise e parece que, de novo, vai conseguir sair dela. Como vai fazê-lo? Exatamente como Roosevelt e Keynes fizeram nos anos 30/40: aumentando a presença do Estado, promovendo redistribuição de renda, falando grosso com as grandes companhias, dando ouvidos às idéias de exploração sustentável e combatendo os malefícios da exploração da natureza. Se você acha que essas parecem idéias comunistas, tem razão.

Ou seja: agora é o comunismo que está salvando os povos capitalistas.

SínteseDaí que o tom triunfalista dos neo-liberais, direitistas cegos e capitalistas empedernidos é um fogo-fátuo, um grande sofisma. Todos estes que têm festejado os 20 anos da queda chutando o cachorro morto do comunismo – Arnaldo Jabor, João Pereira Coutinho, a canalha da Veja – são pessoas que sentam sossegadas em seus sofás de veludo, com sua taça de uísque 18 anos na mão, com gelo, muito gelo, e, rodando-a, emitem seus aforismos definitivos sobre como o mundo tem jeito agora que o comunismo acabou. Sobre a mesa há um prato de crepes, um ovo trufado ou crème brûilée, e, fora, na janela, há um menino faminto, assistindo a tudo com as mãos coladas no vidro.

Deviam ser mais humildes, já que estão errados. O fim dos estados comunistas totalitários foi uma coisa boa, não há dúvida, mas o supercapitalismo que se lhes seguiu não. O fim desse supe capitalismo seria uma coisa boa, igualmente indubitável, mas acabar com o capitalismo para fazer o quê? É uma resposta que ninguém tem, porque há pouca gente de boa vontade procurando propostas na chamada terceira via.

Num contexto destes, sonhar com um mundo anarquista nem parece mais uma utopia tão exagerada.

O ET mais perto de você

21/10/09
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A Nasa descobriu uma molécula orgânica em um planeta fora do Sistema Solar. Pelo menos na Terra, as cadeias compostas por ligações sucessivas de carbono são um dos pré-requisitos básicos para a existência de vida – ao lado, você sabe, de água, de temperatura regular, essas coisas. Em nosso planeta, o carbono é responsável pelo grafite, pelo papel Stencil, pelo diamante, pelo PVC – e pela pele, o cérebro, os órgãos, a comida, pelos vírus e pelas bactérias. Tudo carbono.

Então a descoberta da Nasa é como que uma revolução, principalmente para aqueles cientistas que, desde o início dos tempos – os nossos tempos –, se debatem com a questão sobre existir ou não vida fora da Terra. Se existir, ainda que seja uma bactéria – bem, isso seria um chute no saco dos criacionistas. A não ser que modifiquemos a Bíblia, dizendo que Deus, depois de fazer a luz, o céu, a Terra, o homem, a Ava Gardner e depois de passar o domingo descansando, tenha gostado do exercício e começado de novo, desta vez trabalhando no planeta HD 209458b.

Não, não se trata de um planeta habitável. Não foi lá, seguramente, que Deus juntou lama para criar um outro Adão, verdolengo e com quatro orelhas. É um planeta grande demais; nada resistiria à gravidade ali.

Mas a descoberta, que aliás nem é inédita, confirma o que era uma longínqua hipótese do astrônomo Carl Sagan, aquele da série Cosmos. Sagan ousou, nos anos 1980 – sim, não faz tanto tempo assim –, sonhar com o dia em que o homem encontraria vida em outros planetas. Por isso, ele era motivo de chacota em muitos círculos científicos respeitadíssimos.  

Cria-se, com base em modelos matemáticos, que a formação de vida era uma casualidade no Universo tal como o conhecíamos. Casualidade que, pelas probabilidades, teria poucas chances de acontecer uma vez – e aconteceu, estamos aqui de prova! –, quanto menos por acontecer duas ou mais vezes. Pior do que isso: os modelos matemáticos ainda aferiam a impossibilidade de existirem sistemas solares iguais a este em que vivemos eu, você, o Maluf, essa gente toda. Aferiam, enfim, a impossibilidade de existirem outros planetas fora do Sistema Solar.

A comunidade científica tem, baseada na aceitação tácita e fanática dos princípios de Karl Popper e outros filósofos da ciência, a mania de achar que, se algo não é provável, então não existe. Estes princípios, aceitos sem nenhuma torção de nariz, levaram os astrônomos a mangar do Carl Sagan. Que era um cientista, que seguia os mesmos princípios e que, se não o fizesse, não teria escrito O Mundo Habitado pelos Demônios, que hoje é nada menos do que a bíblia dos céticos científicos de todo o mundo – aqueles mesmos que zombam dos criacionistas, a meu ver com certo direito.

Contra esse buling da alta academia, Sagan respondia com um argumento que, já à época, parecia razoável: não se deve menosprezar o tamanho do Universo.

Hoje se sabe que há mais estrelas no céu do que grãos de areia numa praia. Se ao redor de apenas uma destas estrelas, que nem é lá muito grande, orbitam nada menos do que oito planetas – eram nove, mas Plutão não tem culpa nenhuma nessa história –, por que não haveria mais planetas ao redor de mais estrelas, estrelas maiores e mais bonitonas, com combinações binárias de lua e tal?

Mais: se há planetas, muitos mais do que se suspeitava, por que não haveria vida, obedecidas as pré-condições para que ela, a vida, haja? Sagan apenas questionava o modelo matemático aceito como bíblia pelos céticos e, ora vejam só, Sagan estava certo! Estão aí o Hubble e o Spitzer, que não o teriam deixado mentir se tivessem sido inventados antes.

Conclusão número um: na ciência, o ceticismo é importante para se aceitar uma lei universal, mas também é importante que haja, senão a credulidade, uma certa esperança no improvável para que descubramos coisas novas.

Conclusão número dois: se a tecnologia de que a Terra ainda dispõe para investigar planetas distantes é pouca, e mesmo assim já foi suficiente para encontrarmos os pré-requisitos básicos para a vida, então são grandes as possibilidades de que Carl Sagan estivesse certo: pode mesmo haver algo lá fora.

Fox Mulder ficaria deliciado.

A Abril e a Justiça brasileira

19/10/09
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A editora Abril e a revista Veja conseguiram uma condenação em primeira instância contra o jornalista Luis Nassif. Ele é o autor deste extenso dossiê sobre a revista Veja, outrora a ponta-de-lança do jornalismo investigativo brasileiro, hoje uma perfeita porcaria, um panfleto a serviço do neo-fascismo latino-americano – e que tem entre os dirigentes uma organização que outrora, na África do Sul, apoiava o regime do apartheid.

Nos últimos anos, a Justiça e a democracia têm vivido uma verdadeira roda-viva na boca do povo durante os debates públicos. Funciona assim: se o jornalista Reinaldo Azevedo não gosta do presidente Lula, então o Brasil não vive uma democracia – viveria uma democracia se Reinaldo Azevedo gostasse do presidente Lula. Não digo isso porque o sujeitinho em questão é da direita de pijama (ou melhor: de panamá). Também funcionava com a esquerda: se Bernardo Kucinsky não gostava do presidente FHC, então o Brasil não vivia uma democracia.

Com a Justiça é parecido. Se é condenado alguém com quem simpatizamos, como eu simpatizo com Nassif, então a Justiça é uma porcaria. Se é condenado alguém com quem antipatizamos, como eu realmente não gosto do Diogo Mainardi, então fez-se Justiça, e as coisas estariam melhorando.

O raciocínio da gente funciona assim, de fato. Mas a Justiça não.

Alguns dizem que o Poder Judiciário é o maior ninho do retrocesso político e social brasileiro. Que não funciona para os pobres. Nem também para a classe média. Que é lento, insuficiente, insatisfatório. Que está cheio de reacionários.

Dizem isso, sim, e às vezes até concordo. Mas tem o seguinte: o Poder Judiciário é a nossa última chance sempre que somos vítimas de flagrante injustiça.

Flagrante injustiça é uma especialidade da editora Abril e da revista Veja. São ricos. Quando são condenados, têm de pagar aquilo que, para eles, é dinheiro de pinga. Só que geralmente não são condenados. Têm dinheiro para ricos advogados, e ainda assim gastam menos em advogados do que gastariam em indenizações.

“Dinheiro para advogados” é o que mantém longe das grades gente como Ângelo Calmon de Sá, Naji Nahas, Daniel Dantas – todos muito, muito ricos. Há representantes da Abril nesta lista. E não é culpa da Justiça, não, pelo menos, se você deixar de pensar em “Justiça” como uma entidade anônima e conspiradora que batalha para enriquecer os ricos e empobrecer os pobres. A Justiça é um sistema e resulta de uma complexa teia de corações e mentes, éticas e ideologias distintas e heterogêneas. É um mini-Brasil.

Nassif vai recorrer, e torço que ganhe o recurso.