O Segredo dos Seus Olhos

3/03/10
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Na festa do Oscar deste ano, A Fita Branca, comentado abaixo, vai concorrer com, entre outros três candidatos, o argentino O Segredo dos Seus Olhos, dirigido por Juan José Campanella. Oscar, você sabe, não dá para levar muito a sério. O glamour é mais importante do que o resultado, o apelo econômico mais importante do que o artístico. A Fita Branca é o melhor filme em muito, muito tempo. Pode ganhar o prêmio porque foi Palma de Ouro em Cannes, e há muitos membros americanos da Academia que não entenderam nada o filme austríaco, mas não querem parecer burros. Mas, peça contra peça, acho que O Segredo tem muito mais o perfil da academia.

É um filme excelente, como é quase todo o cinema argentino nos últimos anos – que me perdoem os xenófobos, ainda mais nesse ano de Copa, mas a cinematografia brasileira recente não serve para limpar os sapatos da argentina. Hollywood gosta de filmes por gênero, e mesmo nesse quesito O Segredo dá uma aula: é thriller político, é suspense, é comédia – você se dobra de rir em determinados pontos –, é drama comovente, é um belo romance.

A história é a de um procurador que se aposenta e resolve escrever um livro sobre o caso que marcou sua vida, o assassinato de uma moça às vésperas do golpe militar na Argentina. Em flashes back, percebemos como o procurador se identificou com o marido da vítima, como ele se envolveu com a sua nova chefe e como se dobrou para investigar o caso, com a ajuda de um arquivista alcoólatra e muito engraçado.

No final, a resolução do mistério, por si interessante, dá lugar a suas consequências, pontuadas pelo próprio regime que então se estabelecia. Há mais um assassinato na história, e absolutamente todas as relações são rompidas tragicamente. A cena mais forte se passa num elevador, e nela temos uma clara ideia sobre o que é a ditadura: injustiça, pura e insuportável injustiça.

E isso tudo está num filme argentino. Lembrei-me então que num filme brasileiro como O que é isso, companheiro, o torturador é um sujeito quase boa-praça, que sofre com a consciência. É possível imaginar que isso tenha acontecido, em nossa ingenuidade a la Rousseau. Mas vem cá: por que é que, com toda a violência que vingou no estado de exceção dos militares, nunca um torturador veio a público confessar-se, dizendo-se arrependido?

A Argentina leva grande vantagem em relação ao Brasil nesse quesito. Sua ditadura durou apenas sete anos e terminou depois de uma guerra insana. Teve, é verdade, mais episódios sangrentos, mais vítimas, mais crueldade do que a nossa. Mas os argentinos falam disso abertamente. Ponderam quais foram as cruéis consequências da arbitrariedade na cultura e na sociedade locais. Mais do que isso: julgam, condenam e punem os torturadores. Já no país da ditabranda, onde o cinismo impera, até a anistia, que devia ter beneficiado os que foram castigados por ter uma opinião política, beneficiou os que torturaram. O resultado é O que é isso, companheiro?

Olha, sugiro que você prefira veja O segredo dos seus olhos.

A Fita Branca

2/03/10
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Numa das cenas-chave de A Fita Branca, filme de Michael Haneke em cartaz em algumas poucas salas de São Paulo, a baronesa, única aristocrata numa pequena vila que é um microcosmo da Alemanha pré-Primeira Guerra, diz ao marido que vai embora para a Itália levando os três filhos. “Não vou criá-los num ambiente com tanta inveja, tanta maldade e medo”, diz a personagem.

É um resumo do filme. A história gira em torno das relações entre os moradores da vila e seus filhos. Ao mesmo tempo em que tratam as crianças com um rigor arbitrário e incompreensível para os dias de hoje, os adultos escamoteiam os pequenos erros delas, de maneira a permitir-lhes, aos poucos, que cometam crimes impunemente, em nome da pureza que, no filme, é representada pela tal fita branca.

É a situação que, potencializada pela derrota na guerra e pela consequente crise, desencadearia a formação do nacional-socialismo. Haneke localiza nas crianças o problema, mas não as causas dele. Os meninos são formados por seus pais, cuja austeridade data, quiçá, dos pais deles e assim por diante, numa fila de gerações que é perpetuada pelos vícios da modernidade – uma época dominada por uma burguesia que, à falta de uma moral própria erigida como alternativa à aristocracia ou mesmo construída durante o Iluminismo, importaram a moral prévia, aristocrática e autoritária, que não se encaixava nos padrões burgueses. E não se encaixa até hoje.

A outra cena-chave é quando o filho da parteira, uma criança inofensiva portadora de Síndrome de Down, é encontrado após ter sido espancado ninguém sabe por quem – mas todos desconfiam, com razão, que foi pelas outras crianças. Junto com o garoto jaz um bilhete, informando que os filhos pagarão pelos erros de seus pais.

Ali se encontra a mais forte metáfora criada por Haneke: as crianças, autoras do regime que mergulharia o mundo no horror, informam que o nazismo tem sementes muito anteriores às dos próprios nazistas, que nem por isso são menos criminosos. A Alemanha nacional-socialista pagaria pelos erros de seus antecessores. Os povos da Europa e do mundo também.

Como muitos das últimas e da atual geração, Haneke é um cineasta da violência. Ao contrário da maioria, contudo, ele não é um apólogo: a violência está presente em todos os seus filmes, em níveis quase insuportáveis, mas há pouco ou nenhum sangue e quase nada é explícito. A Fita Branca é um filme de uma austeridade quase alemã – Haneke é austro-suíço – e há muita frieza em suas histórias.

Daí que muitos tenham-no acusado de apologia à violência, uma acusação estúpida. É o fato de não fazer concessões que firma ao caráter da obra do cineasta o status de arte. Ele é polêmico, mas uma pessoa polêmica não é necessariamente errada – ela apenas agrada e desagrada as pessoas numa forte medida.

Haneke concedeu recentemente uma entrevista à Der Spiegel, na qual os entrevistadores irritaram-me mais do que o entrevistado. Tantas questões a fazer sobre um filme tão rico, e eles só perguntavam-lhe por que é que ele não pensava em entreter mais as pessoas. Ficou patente que, para o jornal alemão, cinema só deve divertir e ponto. Eles podiam ter procurado o Spielberg, ou o Shyamalan, ou o Peter Jackson. Além de ser entertainers muito melhores, são cineastas com os quais a obtusidade dos entrevistadores não iria atrapalhar o resultado final da entrevista.

Enfim, A Fita Branca encerra com chave de ouro uma década ótima para Michael Haneke. Ele inovou a linguagem cinematográfica ao mesclar narrativa com metalinguagem cinematográfica em Cachê. E fez a melhor definição da pós-modernidade já pronunciada por alguém em Código Desconhecido. É o grande cineasta do nosso tempo.

Para adiar o fim

22/02/10

 

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Escrevi, em post anterior, que o diretor de cinema Francis Ford Coppola está tentando se reencontrar. Eu estava influenciado por algumas críticas americanas e inglesas que havia lido na internet sobre seus últimos filmes, Youth Without Youth e Tetro. As críticas são interessantes, escritas a partir do ponto de vista mais óbvio – o da audiência. O filme é bom ou não? É isso que o leitor quer saber.

Mas, para falar sobre os dois filmes, os únicos que Coppola rodou nesta década, vou precisar rever minha opinião. Coppola não está tentando se reencontrar. Ele realmente desistiu dos velhos e bons tempos, aqueles em que era aclamado após o lançamento de um filme. O que, na verdade, só aconteceu três vezes: quando rodou O Poderoso Chefão; dois anos mais tarde, quando lançou O Poderoso Chefão II; e em 1988, com Tucker, um Homem e seu Sonho, filme hoje preterido em detrimento de Apocalipse Now e Drácula de Bram Stocker. Em suma, Coppola teve dois auges, um nos anos 1970, outro na passagem dos 1980 para os 1990. No meio tempo, exercitou seus esportes prediletos: fazer vinhos e brigar com a indústria cinematográfica.

O sonho do velho Francis era ser um Jack Warner, um Louis B. Mayer que pudesse investir não apenas em filmes rentáveis, mas principalmente em filmes artísticos rentáveis. Pode-se dizer que esse é o sonho de grandes artistas desde a época do mecenato, da Roma de Ésquilo ou da Itália de Michelangelo. Só que nem todos os artistas são megalomaníacos. Coppola é.

Nesta década, ele desistiu da megalomania dos grandes estúdios. Conseguiu, enfim, sucesso como industriário – mas vendendo vinhos. Então, transferiu sua mania de grandeza para a erudição de seus filmes. Coppola sempre foi um mestre em contar histórias por camadas. Na mais superficial, acessível a qualquer público, entende-se a narrativa linear da película. Depois há outras histórias, sublineares, contadas por meio da relação entre os atores ou por meio da edição – numa palavra, por meio da técnica. E o diretor já manifestou literalmente o seu desejo em contar histórias nas entrelinhas.

Seus dois filmes desta década contam histórias complexas por meio da técnica, mas agora já não facilitam para o público: na superfície, são fábulas difíceis, irreais, não lineares, que já não encantam multidões. Apenas os eruditos podem se encantar com elas. Mas não são histórias ruins.

De 2009, Tetro é puro Coppola, uma história de uma família cuja disfunção deve-se, aparentemente, às relações de amor e ódio entre pai e filhos e entre irmãos. No final, contudo, a disfunção deve-se a discordâncias sobre a arte.

Youth Without Youth (2007) é um filme sobre a temporalidade, como De Volta para o Futuro e Os 12 Macacos (e como Peggy Sue, seu Passado a Espera, do próprio Coppola), mesclado com reflexões sobre o tempo. É difícil de acompanhar, mas no final o seu tom fabular prevalece, junto com o encanto.

Os dois filmes parecem desdobramentos das reflexões que o próprio Coppola andava fazendo em seu blog na época em que ficou sem filmar. São sobre a velhice, a imortalidade e a desistência dos velhos ideais. Coppola não está tentando se reencontrar: só está fazendo o que sabe fazer melhor para adiar o fim.

***

Assisti aos dois filmes recentemente. Não foram lançados no cinema. Não foram lançados em DVD. Não fosse a internet, eu jamais os teria visto. Daí eu faço as seguintes perguntas para os gênios do Ecad, para os deputados e para os publicitários que fazem campanhas contra a pirataria: que alternativa vocês me deram? Que alternativa há para os pobres terem acesso à cultura globalizada? Impedir o download não é por si mesmo uma forma de censura (hein, Abra? Hein, Abert?)?

Cinema: o que dá para fazer sem pressa

18/02/10

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Foi só na terça-feira de Carnaval, depois de assistir a Invictus, o último filme de Clint Eastwood, que eu me senti com estofo para criticar O Lobisomem, que vira na sexta anterior. O Lobisomem parece uma tentativa da Universal de ressuscitar a sua maior marca histórica: os filmes de monstros, moldados na narrativa clássica, e que fizeram o terror de toda uma geração nos anos 1930 e 1940. Os heróis da Universal eram Bela Lugosi, Boris Karloff e Lon Chaney Jr..

Aqueles clássicos, claro, não assustam mais ninguém. O Pítolo, de 4 anos, viu comigo O Lobisomem – o original, com Lon Chaney Jr. e Claude Raims – e falou: “papai, o filme é cinza e esse lobisomem é muito bobão”. Tive de concordar. Parece que qualquer criança de 4 anos é menos inocente do que os jovens que tinham lá seus 25 anos na década de 1930. O que ficou foi o charme. Tanto do P&B quanto daquela figura quase meiga, enrolada em pêlos e meio sem saber o que fazer.

Bom, o primeiro erro da Universal foi exagerar na tentativa de tomar por base os seus personagens, atualizando-os. A figura do lobisomem no atual remake é um pastiche da figura do monstro no filme de 1941. É aquela que não assusta mais ninguém e que o meu filho chamou de “bobona”. A dessa nova versão é mais boba ainda, porque não leva em consideração a inocência que perdemos hoje, depois de décadas de filmes de horror, entre eles dois bons produtos desse subgênero, a licantropia, Grito de Horror e Um Lobisomem Americano em Londres.

Mas o pior erro da Universal foi a pressa. Não em organizar a produção, que já era anunciada em 2008, mas em contar a história. Bons filmes de terror têm clima, mas não dá para fazer isso dirigindo um videoclipe a 30 cortes por segundo. Você tem de deixar os personagens chegarem, se apresentarem, conhecerem uns aos outros, dar a conhecer ao expectador as suas angústias e a sua solidão – a solidão é o ingrediente mais apavorante de todos os filmes. São essas características que você vai personificar na forma de um monstro bem feio e malvadão lá pelas tantas, de preferência a partir dos 40 minutos de filme. O Peter Jackson, veja você, levou mais de uma hora de cenas para mostrar o seu King Kong pela primeira vez. E olha que no final estávamos torcendo para o macaco!

De modo que você não toma nenhum susto, não simpatiza com nenhum personagem, não dá a menor bola para o lobisomem, coitado.

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Depois fomos ver Invictus. É uma história sobre tolerância, como Eastwood vem fazendo, e bem, nesta década. Mas muita gente corre aos cinemas, claro, não para refletir sobre tolerância, mas para ver um filme sobre rúgbi. Um filme esportivo, como Vale Tudo, Fuga para a Vitória, Um Domingo Qualquer, em que, no final, os jogadores se superam, ganham o campeonato e, de quebra, dão uma lição etc. Quem esperar isso de Invictus vai precisar ter paciência, porque aqui a figura que interessa é o Nelson Mandela, que não foi jogador de rúgbi. Ele usa o rúgbi – um esporte que, na África do Sul pós-apartheid, é elitista, praticado pelos descendentes dos colonizadores ingleses e holandeses – para tentar unir brancos e negros e evitar o clima de revanchismo. Mandela é uma das poucas figuras vivas que ninguém, fora da África do Sul, tem coragem de criticar.

O filme encanta pela história das relações. Há uma cena longa mostrando o estranhamento entre os seguranças brancos e negros que cobriam o presidente. A extensão da cena lembra uma peça e pode aborrecer os adolescentes de espírito. Outras cenas seguem a mesma toada.

Se você quer ver rúgbi, terá de esperar o final, longo e com o suspense necessário aos filmes esportivos. Porque é isso mesmo: Clint Eastwood não tem pressa para contar a sua história. Ele vai construindo as relações com calma, sem avidez, sem se deixar levar pelo espírito de videoclipe das gerações atuais. Escrevi aqui uma vez que Eastwood é o grande diretor-autor em atividade em Hollywood. Mantenho a opinião. Só os irmãos Cohen rivalizam com ele. Woody Allen está filmando na Europa, onde é mais aceito. Scorcese ficou meio ridículo, Coppola está tentando se encontrar, De Palma se dá bem mesmo é com os filmes pequenos.

Demorou, mas o homem finalmente é conhecido como um gênio. É no que dá não ter pressa.

PS. Mas você não é obrigado a concordar com a minha opinião. O Guia da Folha dá três estrelas para O Lobisomem, tantas quantas dá para Invictus.

Sobre (500)

12/02/10
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Lançado em DVD esta semana, (500) Dias com Ela é o filme com aura indie de 2009, da mesma maneira que Juno e Alta Fidelidade foram em anos anteriores. Mas (500) não é um filme independente, pelo contrário. É lançamento bancado com firmeza pela Fox. Por isso, consegue ser pouco mais do que aquelas comédias românticas bobinhas – tem só um pouco de clichê a menos do que elas. É um filme, veja você, sobre a fossa.

O que fica é mesmo a trilha sonora, que já diz a que veio no trailer, uma notória cena em Zooey Deschanel diz “eu amo os Smiths” para Joseph Gordon-Levitt no elevador. A música é There Is a Light that Never Goes Out. Depois ainda toca Please Please Please Let Me Get What I Want, dos mesmos Smiths. O mocinho canta, no karaokê, Here Comes Your Man, dos Pixies, e eles passeiam pela loja de móveis ao som de There Goes The Fear, dos Doves, que eu já ouvi no filme Jogos de Sedução, com Gael Garcia Bernal. Nem a Carla Bruni fica de fora. Um filme com essa trilha pode ser a porcaria que for, que será sempre bom.

Sharon Tate

11/02/10

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No ano passado fez 40 anos do assassinato de Sharon Tate. Só me toquei no sábado, depois que o SBT exibiu um filme (muito ruim, por sinal) sobre a história do Charles Manson, o sujeito responsável pela morte da garota, que estava grávida e tinha 26 anos.

No filme, apesar de ser um crápula, Manson agrega uma legião de fãs em torno de um certo misticismo que havia em seu discurso. Passados 40 anos, é mais fácil dizer que ele era só um crápula, nada mais. Foi um crime lesa-majestade.

Depois ainda encontrei esse link no blog do Soares Silva. Ele é cheio de nhém-nhém-nhém, mas tem bom gosto.

…, 17 anos depois, …

10/02/10
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Não posso ler uma notícia dessas sem sentir, como brasileiro, que sou mesmo um palhaço. São histórias como essa que tiram da Justiça brasileira a qualidade de morosa e atribuem-lhe a de ineficiente. E de elitista, pois apenas os que têm dinheiro de sobra vão se aventurar nos tribunais para garantir direitos que muitas vezes, perto dos direitos negados cotidianamente à maioria de classe média ou pobre da população, poderiam ser considerados uma frivolidade.

Lembrando que um dos suspeitos de responsabilidade sobre o massacre, o coronel Ubiratan Guimarães, foi assassinado em 2006, e mesmo esse crime a polícia e a Justiça não puderam, ou não souberam, esclarecer. Ubiratan sempre negou responsabilidade sobre a chacina. E até apresentou argumentos consideráveis. Mas isso não muda o fato de que a sua figura pública de justiceiro contribuiu para que fosse eleito deputado estadual.

***

A democracia é isso mesmo. Quando você ouvir alguém praguejando contra os políticos, dizendo que eles são corruptos, vagabundos e salafrários, convém perguntar-se se, sem perceber, a pessoa não está criticando toda a sociedade brasileira, inclusive ela própria. Os políticos, queiramos ou não, são um retrato do eleitorado, com todas as vicissitudes. Não são eles versus nós: eles somos nós. Senão, como explicar o Maluf, o Conte Lopes, o Ubiratan?

Jean Simmons

4/02/10

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As grandes deusas do cinema eram a Rita Hayworth, a Ava Gardner, a Greta Garbo, a Ingrid Bergman, Sophia Loren e Veronica Lake, Jane Russel e Gina Lollobrigida. Mas já vi muito fã de cinema dizer que sua preferida era a Maria Montez, a Olivia de Havilland, até a Bete Davis. Gosto não se discute. Discretamente, a minha favorita era a Jean Simmons. Inscrevia-se na tradição da Bete Davis e da Ingrid Bergman, porque era, ao contrário da maioria, uma grande atriz. Mas nunca seguiu o estilo mulherão: era inglesinha, mignonzinha, graciosinha.

Morreu há duas semanas, aos 80 anos, em sua casa na Califórnia.  

 

Um viva à qualidade da TV brasileira

3/02/10

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Um forte sintoma da decadência editorial da grande mídia é a qualidade dos novos articulistas que frequentam Folha, Estadão e quetais. Uma das revelações da Folha é o escritor português João Pereira Coutinho, que se presta ao papel de polemista que em outros veículos, noves fora, é cumprido por Diogo Mainardi e Demétrio Magnolli. Há articulistas que são tucanos assumidos, outros – poucos, na grande imprensa – petistas ou lulistas escamoteados.

E há os radicais, que se dizem apenas independentes, como o Coutinho. Cada artigo dele traz um infindável desfile de bobagens pretensamente eruditas, mas sempre consultando as fontes erradas. É a velha história da ciência a serviço da ideologia, uma excrescência que se diz iluminista, mas no fundo é precisamente o contrário.

O artigo desta terça, por exemplo, é sobre a televisão. Coutinho reza que os benefícios do conteúdo da TV são maiores do que os seus malefícios. E evoca um certo Charles Kenny, de quem eu e, diga-se de passagem, o próprio articulista nunca tínhamos ouvido falar. Aparentemente, a pesquisa do senhor Kenny a que Coutinho se refere é do tipo positivista, funcionalista: tem muitos números, baseia-se na lógica cartesiana e procura não mudar o sistema, mas corrigir os pequenos vícios que há dentro dele, enquanto o próprio sistema continua religiosamente igual.

Sabe o leitor quanta gente já desenvolveu estudos de recepção sobre a TV? Quem se aventurou pelo pequeno inferno que é uma pós-graduação em Comunicação Social faz, no mínimo, uma vaga idéia. Não é o caso de Coutinho. Ele desenvolve um raciocínio simples, para não dizer simplista. Às idéias dos estudiosos que enxergam a TV de maneira crítica, aqueles que Umberto Eco chamaria de apocalípticos, chama-as de ignaras e inúteis. Acha que as “más influências” das novelas (aspas dele) são, na realidade, boas influências. A nova intelligentsia mundial, ou pelo menos parte dela, apoia a teledramaturgia da Globo.

Até vinte anos atrás, a intelectualidade entre os comunicólogos rezava pela cartilha de Frankfurt, gente como Adorno, Horkheimer e Marcuse, que cunharam o termo Indústria Cultural, jamais contestado até hoje, e desenvolveram um pensamento segundo o qual a tendência da chamada cultura pop – que não é a erudita nem a popular, mas sim aquela feita pela indústria para o consumo das massas – é a de nivelar por baixo a cultura de seu consumidor.

Nos últimos vinte anos, contudo, é Frankfurt quem sofre com outra tendência, a de relativizar todas as leis totalizantes que vieram com a Modernidade. Aconteceu com Freud, com Marx, com Darwin, e aconteceu com Adorno. Para o novo pensamento, a Indústria Cultural, sim, existe, mas ela não é necessariamente ruim. Essa tendência surgiu entre a direita, mas também entre pesquisadores marxistas, como o jamaicano Stuart Hall e o brasileiro Carlos Eduardo Lins da Silva.

Em si, a relativização não é perversa. É possível que, no afã de abraçar o mundo, as citadas leis totalizantes tenham produzido muita miséria física, econômica, intelectual. Não raro, um psicólogo que pregue as leis de Freud com muito rigor ou, pior, um sociólogo que siga a cartilha de Marx ao pé da letra nunca conseguem contribuir para a expansão do conhecimento humano. Tratam a teoria como bíblia, e o resultado do pensamento científico – que para ser válido tem de ser falsificável, no dizer de Popper – é um dogma. Dogmas não são uma questão de ciência, mas de fé.

O problema é que a ânsia de desdizer essas teorias que, se são totalizantes, nem por isso são fundamentalmente erradas, pode ser por si só dogmática. É um jogo perigoso. O pensador livre vive numa corda bamba e tem de cuidar para não escorregar nos seus próprios radicalismos. O fato de Adorno ter encarado os receptores da comunicação como uma raça disforme e sem vontade própria não faz com que os efeitos das obras exibidas pela TV sejam menos perversos.

Lins da Silva, por exemplo, concluiu, em Muito Além do Jardim Botânico, que a exposição do Jornal Nacional a comunidades pobres não evitava que elas adquirissem senso crítico com relação ao que viam. É verdade, mas a questão, como escreveria mais tarde Armand Mattelart, é: quem é que domina o processo com o qual essas comunidades adquirem senso crítico? Em outras palavras, no momento em que percebessem que o Jornal Nacional – aquele que trata o público como Hommer Simpson – não é minimamente confiável, não seria de se esperar que essas comunidades fossem procurar notícias de outras fontes? Esta é a pergunta que a anti-totalização da pesquisa de Lins da Silva não respondeu – e diga-se, para ser justo, que nem era esse o seu objeto.

Mas é difícil que João Pereira Coutinho conheça o trabalho de Lins da Silva pregresso à posição de ombudsman da Folha que ele ocupa hoje. Não sei também se Coutinho conhece Hall, ou Raymond Williams, ou Jesús Martin-Barbero, ou John B. Thompson, ou Bernard Berelson, ou qualquer um dos inúmeros pesquisadores que já produziram pesquisas confiáveis sobre a recepção. Coutinho não é um comunicólogo, mas tem uma carta livre da Folha de S. Paulo para falar sobre o que bem entende como se fosse um conhecedor. É o que o escritor Furio Lonza chamou de caso de polícia, num texto que uma vez publicou na Revista Superinteressante, a respeito das pessoas que escrevem sobre o que não conhecem.

Na abertura de seu ótimo As Razões do Iluminismo, Sérgio Paulo Rouanet alerta para o perigo desta relativização. Não é Bach que ameaça a literatura de cordel, é a novela das oito, diz o filósofo. Coutinho acha que as “boas influências” (agora as aspas são minhas) da televisão tendem a alçar o povo a um estágio superior, aquele de se imitarem as elites a ponto de ficar parecido com elas.

Não é o único que relativiza a perversidade, tendendo a perdoá-la. No mestrado, cometi o equívoco, um dos maiores da minha vida, de procurar uma orientadora que era, descobri mais tarde, uma defensora entusiasta das telenovelas. Seus orientandos, menos eu, também. Não é preciso dizer que o saco encheu e o meu projeto fez água. Conheço muita gente que adora novelas, mas entrar em campo para competir sozinho contra o filistinismo (expressão do Coutinho) de um time inteiro pretensamente intelectualizado é covardia.

Em todo caso, o que se pode constatar é que, de repente, Sílvio Abreu, Benedito Rui Barbosa e (arreda capeta, pé-de-pato, mangalô três vezes) Glória Perez têm um status maior entre certa intelectualidade do que Machado, Graciliano e Guimarães. Antes de dever-se à qualidade artística do trabalho daqueles autores, este status deve-se ao poder de influência deles sobre a cultura brasileira dos dias de hoje, aquela que é representada pelo cidadão comum, que nunca dançou o bumba-meu-boi. Pegue uma varredora, uma recepcionista, uma secretária ou uma executiva e veja se ela é mais influenciada pelo Walter Negrão ou pelo Manuel Bandeira. Depois disso, chore. A intelectualidade, assim, dá lustro de respeito à telenovela.

Mas pior mesmo é a auto-indulgência com que Coutinho defende a televisão: antes de falar de suas maravilhas, ele diz que, não sendo um filisteu, não assiste à TV! Não dá para saber se está simplesmente mentindo ou reconhecendo que está discursando sobre um objeto de que não entende. Nos dois casos, incorreu em desonestidade intelectual. Essa a miséria da nova mídia brasileira.

E quanto a Bach? Bah!

PS. Mas é bom lembrar que há críticos de ontem e hoje – entre eles Eugenio Bucci e Telmo Martino – que seguem fazendo um bom trabalho.

PPS. Na foto, o elenco da Globo se prepara para enfiar um pouco de cultura na cabeça dessa gente ignara.

Um debate interminável

1/02/10

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Voltando de curtas e merecidas férias, descubro que há dez dias a Folha de S. Paulo publicou minha carta criticando um artigo do jurista Ives Gandra Martins, que atacava a proposta de Lei de Direitos Humanos enviada pelo Governo Federal ao Congresso. Mais há a dizer sobre o artigo (e muito mais sobre a proposta), mas deixo aqui apenas a reprodução das palavras de Gandra e das minhas, além de outras repercussões publicadas pela Folha, para que os leitores do blogue (todos os dois e meio) possam formar sua própria opinião.

A única informação a acrescentar é um repeteco de muito do que eu já disse aqui: a tortura é crime contra a humanidade, sujeito a julgamento por tribunal internacional, e portanto imprescritível. Aliás, foi exatamente o que disse o presidente da OAB, Cezar Britto.

Aqui vai o artigo:

Guerrilha e redemocratização

 Ives Gandra da Silva MartinsOREGIME de exceção, em que o Brasil viveu de 1964 a 1985, foi encerrado, não por força da guerrilha -que terminou, de rigor, em 1971-, mas principalmente pela atuação da OAB, à época em que figuras de expressão a conduziam, como Raymundo Faoro, Márcio Thomaz Bastos, Mário Sérgio Duarte Garcia e Bernardo Cabral, e de parlamentares como Ulysses Guimarães, Mário Covas e Franco Montoro, entre outros.
Tenho para mim que a guerrilha apenas atrasou o processo de retorno à democracia, pois ódio gera ódio, e a luta armada acaba por provocar excessos de ambos os lados, com mortes, torturas e violências.
Muitos dos guerrilheiros foram treinados na mais antiga e sangrenta ditadura da América (Cuba) e pretendiam, em verdade, apenas substituir uma ditadura de direita por uma ditadura de esquerda.
Os verdadeiros democratas, a meu ver, foram aqueles que, usando a melhor das armas, ou seja, a palavra, obtiveram um retorno indolor à normalidade, sem mortes, sem torturas, sem violências.
A Lei da Anistia, proposta principalmente pelos guerrilheiros, foi um passo importante para a redemocratização, pois possibilitou àqueles que preferiram as armas às palavras a sua volta ao cenário político. A lei, à evidência, pôs uma pedra sobre o passado, sepultando as atrocidades praticadas tanto pelos detentores do poder, à época, como pelos guerrilheiros. E foram muitas de ambos os lados.
Num país em que o ódio tem pouco espaço -basta comparar as revoluções de nossos vizinhos com as do Brasil para constatar que o derramamento de sangue aqui foi sempre muito menor-, tal olhar para o futuro permitiu que o Brasil ressurgisse, com uma Constituição democrática.
Nela, o equilíbrio dos Poderes possibilitou o enfrentamento de crises, como o impeachment, a superinflação, os mais variados escândalos, entre os quais o do mensalão foi o maior, e a alternância de poder sem que se falasse em rupturas institucionais. Vive-se -graças à redemocratização voltada para o futuro, e não para o passado- ambiente de liberdade e desenvolvimento social e econômico próximo ao de nações civilizadas.
O Programa Nacional de Direitos Humanos, organizado por inspiração dos guerrilheiros pretéritos, pretende, todavia, derrubar tais conquistas, realimentando ódios e feridas, inclusive com a tese de que os torturadores guerrilheiros eram santos, e aqueles do governo, demônios.
Essa parte do plano foi corrigida, tendo o presidente Lula admitido que, se for criada a comissão da verdade, há de apurar tudo o que de excessos foi praticado naquela época -por militares e guerrilheiros. Tenho a impressão de que isso não será bom para a candidata Dilma Rousseff.
O pior, todavia, é que o programa é uma reprodução dos modelos constitucionais venezuelano, equatoriano e boliviano, todos inspirados num centro de estudos de políticas sociais espanhol, para o qual o Executivo é o único Poder, sendo o Judiciário, o Legislativo e o Ministério Público Poderes vicários, acólitos, subordinados. No programa, pretende-se fortalecer o Executivo, subordinar o Judiciário a organizações tuteladas por “amigos do rei”, controlar a imprensa, pisotear valores religiosos, interferir no agronegócio para eliminá-lo, afastar o direito de propriedade, reduzir o papel do Legislativo e aumentar as consultas populares, no estilo dos referendos e plebiscitos venezuelanos, além de valorizar o homicídio do nascituro e a prostituição como conquistas de direitos humanos.
Quem ler a Constituição venezuelana verificará a extrema semelhança entre os instrumentos de que dispõe Chávez para eliminar a oposição e aqueles que o PNDH-3 apresenta, objetivando alterar profundamente a lei maior brasileira.
O programa possui, inclusive, “recomendações” ao Judiciário sobre como devem os magistrados decidir as questões prediletas do grupo que o elaborou, à evidência, à revelia de toda a população e do Congresso. Pela má qualidade do texto e pelo viés ideológico ditatorial, dificilmente essas propostas passarão no Legislativo. Se passarem, creio que o Supremo barrará tudo aquilo que nele fere as cláusulas pétreas constitucionais e os valores maiores em que a sociedade se lastreia.
Certa vez, ao saudoso crítico Agripino Grieco um amigo meu (Dalmo Florence) apresentou livro de poesia recém-lançado, pedindo-lhe a opinião. No dia seguinte, Agripino disse-lhe: “Dalmo, li o livro de seu amigo e aconselho a queimar a edição e, em caso de reincidência, o autor”. Sem necessidade de adotar a segunda parte do conselho agripiniano, a primeira seria admiravelmente aplicável a esse programa de direitos desumanos.
IVES GANDRA DA SILVA MARTINS, 74, advogado, professor emérito da Universidade Mackenzie, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra, é presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio. 

E, aqui, as repercussões publicadas em 23/1. A minha é a segunda:

Direitos humanos
“Quando tudo parece estar se perdendo nesse mar de corrupção, hipocrisia e contrassenso, surge, mais uma vez, a voz corajosa e idônea de Ives Gandra Martins (”Guerrilha e redemocratização”, “Tendências/Debates”, ontem). Tudo o que o articulista escreveu sobre o Programa Nacional de Direitos Humanos é absolutamente verdadeiro.
O PNDH é um amontoado de absurdos e afrontas aos direitos dos cidadãos brasileiros. É o resultado de “acordos” espúrios com pessoas e entidades que muito longe estão de representar os nossos direitos e interesses e os interesses do país e que passa, inclusive, pela institucionalização do assassinato de crianças no ventre materno.
Então concluo, concordando com o articulista, que o ideal é mesmo queimar essa excrescência, já que não podemos (ou não devemos) “queimar” o seu autor.”
GISELA ZILSCH, advogada (São Paulo, SP)

“O artigo do nobre jurista Ives Gandra Martins é cuidadoso na escolha dos termos. Chama golpe de “revolução” e ditadura de “regime de exceção”.
Compara os torturadores que agiram a serviço do regime -em nome, portanto, de um poder que representava a coletividade brasileira, mas que não lhes era legítimo- aos opositores que buscaram depor a ditadura. A estes chama de “guerrilheiros”, embora não conste que Vladimir Herzog, Geraldo Vandré, Zuzu Angel ou Heleni Guariba tenham praticado guerrilha nenhuma (mas torturados eles foram).
Não mostra a mínima preocupação com pais e filhos que até hoje não puderam enterrar seus filhos e pais. Diz que a OAB e o MDB foram os principais articuladores do fim do regime, deixando de lado a própria propaganda negativa que a tortura contra os “guerrilheiros” rendia ao governo, bem como os movimentos operário e estudantil. Ao final, sugere que queimar livros seria uma solução democrática, prática, como sabemos, usual na Alemanha dos anos 1930.”
LÉO BUENO (Santo André, SP)

“Após tanta polêmica em relação ao plano de direitos humanos, resolvi, paulatinamente e ao longo dos últimos dias, lê-lo na íntegra. Percebi o quanto superficial foi o tratamento dado pela Folha à questão e o quanto, a meu ver, alguns comentários se mostram equivocados.
Há mais pontos no plano do que foi até agora raramente discutido. Recomendo a todos os leitores que façam o mesmo, a fim de embasar suas opiniões. E recomendo que o jornal aborde o assunto com maior profundidade e que, se for preciso, dado a importância e extensão do decreto, destine um caderno especial a essa questão importantíssima.”
WADY ISSA FERNANDES (São Paulo, SP) 

No dia seguinte saíram mais duas cartas sobre o debate: 

Direitos humanos
“Incrível! Esse é o adjetivo que tenho para o artigo “Guerrilha e redemocratização” (Tendências/Debates”, 22/1), de Ives Gandra da Silva Martins.
Que o professor Ives Gandra sempre foi vinculado ao pensamento conservador da direita brasileira não é nenhuma novidade.
A surpresa fica com o festival de sandices contidas em seu artigo, coroado com a proposta de lançar à fogueira o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos e o seu autor, o presidente Lula, no mais requintado estilo da Santa Inquisição.”
RENATO AFONSO GONÇALVES (São Paulo, SP) 

“Fala-se constantemente em indenizar as “vítimas” do movimento de 1964. Não se fala, entretanto, da indenização devida às famílias dos 126 militares mortos, às vezes covardemente, no período e que apenas cumpriam o seu dever. Já dizia Roberto Campos que uma revolução não é um convescote de escoteiros. Há vítimas dos dois lados.
Deve-se lembrar que a revolução de 64 foi um movimento oriundo da sociedade civil, que exigia a volta do país à normalidade, pois imperava a desordem e as greves se sucediam até em setores vitais, como água, esgotos e ferrovias.
Havia a ameaça de uma ditadura de esquerda.”
MARLI MIRA HOELTGEBAUM (São Paulo, SP)