Entra eleição, sai eleição, os vícios continuam os mesmos
2/09/10
A denúncia sobre a quebra de sigilo fiscal de pessoas ligadas ao PSDB aqui, no coração do ABC, não é em nada diferente das outras séries de escândalos vitaminados pela imprensa nas últimas duas eleições. Os vícios de parte a parte são sempre os mesmos.
O PT ainda tem muitos aloprados. Gente voluntariosa, que quer mostrar serviço tanto para os atuais quanto para os futuros chefes. Ao mesmo tempo, gente muito, muito burra.
Fabricar dossiês e fazer denúncias contra adversários há muito tempo deixou de significar vantagem eleitoral. A cúpula da campanha petista e o presidente Lula sabem disso muito bem. Lula, aliás, personifica pessoalmente essa constatação. Sendo o maior líder surgido no Brasil em 30 anos, ele perdeu três eleições seguidas fazendo denúncias. Quando as trocou por propostas, ganhou.
Eu disse que o PT ainda tem muitos aloprados. Tem mesmo. Isso não significa que tenha partido do PT, ou mesmo de petistas, a quebra do sigilo. Pode ter acontecido. Ou pode ter partido de outras pessoas. Até que seja constatado o verdadeiro responsável, petistas e mesmo tucanos maquiavélicos são, a priori, inocentes. A presunção de inocência é uma lei universal. Num Estado Democrático de Direito, tem status sagrado. Quer dizer, deveria ter. Faltou avisar a nossa população, sempre ávida pelo próximo linchamento público. Faltou avisar os políticos. Faltou avisar a imprensa.
O PSDB também não mudou nem um pouco. Herdou os vícios com que o PT fracassou na tentativa de arrebatar a presidência – e também os tucanos, quando tiveram um presidente, fizeram-no com propostas, não com denúncias. José Serra foi o homem que atacou Ciro Gomes e Roseana Sarney em 2002. Os tucanos contaram com a indigna colaboração da imprensa para veicular novas e velhas denúncias em 2006. Serra, agora, volta à carga. Sua propaganda eleitoral, de novo, quase nada tem de proposta – e, quando as faz, elas não são alternativas para o que o PT já está fazendo no poder.
As estripulias da Receita Federal em Mauá são, hoje, a principal aposta do PSDB para ganhar a cadeira de presidente. Faltou combinar com o povo, dizer ao povo: “preste atenção nisso”. Porque o povo não prestou atenção nos falsos dossiês de 2006, nem, é bem verdade, no que fizera o delegado da Polícia Federal Edmilson Bruno. Se o povo prestara atenção no ataque de pânico que acometera Regina Duarte em 2002, foi para dar risada dela. E o povo não está prestando atenção no escândalo mais recente.
Mas não é no povo que os tucanos se fiam para, através do flanco aberto na Receita, conseguir a presidência. Serra está apelando, sim, é para a Justiça Eleitoral. A ideia é bloquear a candidatura de Dilma Rousseff, em detrimento da vontade popular – ainda que os envolvimentos da cúpula da campanha petista e de sua própria candidata não sejam nem longinquamente prováveis. O que Serra está fazendo, você sabe, é uma tentativa de golpe de Estado.
Mas nem mesmo José Serra, neste momento, parece estar na ponta de lança de sua própria candidatura e daqueles que ela representa, a direita brasileira. Quem faz esse papel responde pelos nomes vagos de grande imprensa, mídia et cetera. Este papel já fora anunciado, não faz muito tempo, por um dos baluartes da imprensa, Judith Brito, presidente da Associação Nacional de Jornalistas – apesar do nome, trata-se de uma entidade que representa o patronato.
Dissera a dona Judith: “A liberdade de imprensa é um bem maior que não deve ser limitado. A esse direito geral, o contraponto é sempre a questão da responsabilidade dos meios de comunicação. E, obviamente, esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada. E esse papel de oposição, de investigação, sem dúvida nenhuma incomoda sobremaneira o governo [Lula]”. Você entendeu? A imprensa não está procurando apurar as notícias. Não está procurando enviar a você, leitor ou espectador, uma visão imparcial dos fatos. Está, na verdade, apenas fazendo oposição. Pense nisso da próxima vez que ler a Folha ou assistir ao Jornal Nacional.
É a terceira tentativa seguida da imprensa em derrubar o favorito nas eleições presidenciais. Da primeira vez, seu fracasso surpreendeu centenas de observadores imparciais. Da segunda, já deixou de ser novidade. Agora, na terceira vez, a grande imprensa já está assumindo um papel do tipo esco – quixotesco e grotesco, para dizer só um pouco.
Quer dizer: o PT tem seus aloprados. O PSDB faz a mesma campanha fracassada de antes. E a imprensa não larga a mania denuncista. São os mesmos vícios de sempre, para prejuízo de nós, mortais.
PS. A moça lá de cima, você já adivinhou, é a dona Judith. Que feio, dona Judith!











