‘Tropa de Elite’, enfim

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“Eu quase morro fazendo um filme que vai denunciar o absurdo da tortura, aí vem um idiota e fala que eu estou glorificando a tortura?”, declarou José Padilha, diretor de Tropa de Elite. Depreende-se do depoimento que a produção é uma denúncia. Não é. Pode ter sido a intenção, mas não é.

Quem estudou Comunicação sabe que um dos problemas principais do ato de comunicar é o fato comum de o emissor fazer uma idéia da mensagem que pretende transmitir e o receptor entender algo completamente diferente. Isso significa que a comunicação foi ruim.

Em outras palavras: se José Padilha pretendeu denunciar o absurdo da tortura, fracassou miseravelmente. Nem é preciso assistir ao filme para saber isso. Basta ficar na porta de saída do cinema e ouvir os comentários gerais. Um vizinho desse blog, o Levi, chegou a dizer, com razão, que muito moleque com sangue nos olhos sai da sessão disposto a entrar na polícia.

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Desgraças sociais – Agora: eu tinha o espírito disposto a ficar do lado de Padilha. Para começar, ele é o artista na berlinda, gente tendente a ser injustiçada. Fez o documentário Ônibus 174, que manifestava uma profunda vontade de entender as desgraças sociais que fabricam bandidos no Brasil, particularmente nas ruas do Rio de Janeiro.

Tem mais. Padilha não é o autor de A Elite da Tropa, o livro que deu origem ao filme. Muita gente no Brasil e no mundo tende a centrar as críticas a uma produção na figura de seu diretor. Críticos respeitados fazem isso. E o fato é que muitas vezes o que o diretor faz é, somente, transformar o roteiro em película. Sua responsabilidade pode ser mínima, nula até. Um filme pode ter mais a cara do argumentista do que do diretor – é bom lembrar que Luis Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel são os escritores do livro original.

Outras vezes, o roteirista é responsável pela cara final do filme. Neste caso, muito responsável: Bráulio Mantovani, roteirista também de Cidade de Deus, é um narrador de enorme talento. Os trunfos cinematográficos de Tropa de Elite estão ligados à maneira como a história foi concebida, ao humor negro, aos diálogos. Sentem-se mais acertos por parte de Mantovani do que por parte de Padilha, que comete o vício da câmera nervosa nas cenas de ação, espécie de passagem de ida para o inferno da crítica.

E meu espírito também era desarmado pelo fato de Padilha ser vítima de uma acusação comum demais e que normalmente me parece leviana, a de fascista. Hoje em dia, esquerda e direita se esbaldam em chamar de fascistas os seus adversários. Mais do que leviano, é injusto com o enorme número de vítimas dos regimes que tomaram o mundo no século passado. A princípio, talvez Tropa de Elite pudesse ser comparado às produções americanas policiais e direitosas que aglomeram audiência desde os anos 1970, como as séries Máquina Mortífera e Duro de Matar. O segredo é simples: protagonistas são bons, antagonistas são maus. Aqueles agem à revelia da lei para provar que estes não deveriam agir à revelia da lei. Embora esse seja um truque aperfeiçoado por Joseph Goebbels, não é exatamente fascista. Os gregos, Christopher Marlowe, Shakespeare, Dumas fizeram isso muito tempo atrás.

Enfim, assisti ao filme. E agora acho difícil defendê-lo.

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Instinto sádico – Padilha pode ter querido denunciar a tortura, mas na prática, como na série 24 Horas, o público é levado a torcer pelos policiais truculentos, acreditando que o que fazem é necessário. A morte de alguns dos bandidos satisfaz o instinto sádico da audiência, claro, mas isso não é novidade há muito tempo. Acontece, porém, que se trata de um filme pretensamente semidocumental. A narração em off do capitão Nascimento é cheia de aforismos, regras gerais e lições de moral, sem que haja um contraponto com o mesmo status – um off de outro personagem, um erro reconhecido. Em dado momento, o personagem Matias finalmente “estava virando um policial”. Quando via uma manifestação de paz, o capitão queria descer porrada – bem, Matias desce a porrada e nós, espectadores, adoramos.

O diretor não se ajudou a evitar a pecha de fascista. A todo momento, os membros da tropa referem a si como camisas negras, igualzinho à tropa de elite de Mussolini. A moral do Bope parece descartar toda a parte da sociedade que não seja militarizada. Na visão maniqueísta do narrador, os relativistas fazem o jogo do mal. As vítimas quase sempre estão fora do morro.

Também não é um filme que facilite o debate. Uma armadilha em que os defensores de Direitos Humanos caem comumente é a discussão sobre vítimas que merecem ou não merecem ser torturadas. Essa é uma discussão que não se faz e ponto. A tortura não é uma opção, e isso a parte civilizada do mundo já decidiu há décadas, mas agora há quem queira rever a regra – a começar pelo mais poderoso do mundo, o presidente dos EUA.

A tendência é julgar as entidades representadas no filme – o tráfico, a PM, o Bope, as ONGs – pela maneira como estão ali retratadas. E é uma maneira estereotipada. Não existe, nos dias de hoje, uma classe de universidade em que fiquem todos contra a polícia e a favor dos Direitos Humanos. Pode ter existido, nos anos 1970, mas não existe mais. Há policiais não corruptos, e muitos, fora dos grupos táticos especiais. Existem, por outro lado, muitos policiais corruptos a imorais dentro deles. Existem ONGs que batalham contra o estrago provocado pelos traficantes nas favelas, embora, isso é verdade, muitas vezes seus presidentes tenham de estabelecer uma relação harmônica com os chamados donos do morro. Existem não usuários de drogas que consideram urgente a discussão e a revisão do debate em torno da legalização – esse blogueiro é um deles. E a vítima mais aguda da ausência do Estado nos morros não é a classe média, não são os policiais, obviamente não são os traficantes, mas sim os moradores das favelas, honestos e trabalhadores.

O erro, se é que foi um erro e não um ato calculado, é impor uma série de visões sociais todas em preto e branco. A maneira como o debate social se desenha hoje é igualzinha à moral do filme. Todos são extremos perfeitos: traficantes maus, corruptos, policiais bons, ongueiros ingênuos, os cem por cento certos e os cem por cento errados.

E a pirataria ajudou – E, enfim, teve a história da pirataria, e ela é particularmente ilustrativa dos erros e da malícia do filme. A distribuição de Tropa de Elite vai além da Globo Filmes, agora não comprometida com este sucesso comercial. É da Universal, uma das majors mundiais desde o começo do século XX. De cara, isso garantiu que a campanha contra a pirataria ganhasse espaço e recursos, simbolizados naquela medonha propaganda americana do pai que presenteia o filho com um DVD ilegal.

Mas teve um detalhe que não vi ninguém discutir: os anunciantes. Nunca esperei tanto para um filme começar no Cinemark. Contei mais de dez patrocinadores, todos de marcas gigantes no mercado: Fanta, Ford, Santander. Essa gente nunca dá ponto sem nó. Estavam confiando num sucesso de bilheteria que realmente veio – e quais foram os seus indicadores para isso, senão a já gigantesca audiência que o filme tivera antes de sua estréia? Donde podemos concluir que a pirataria impulsionou fortemente a divulgação, ou seja, Tropa de Elite se aproveitou de um fato que seus produtores combateram incansavelmente.

Há, portanto, um forte conteúdo de hipocrisia nesta história, e ela casa incrivelmente bem com o tom impresso na película. Padilha, diretor de talento, teria um ótimo assunto para explorar aqui.

19 respostas para '‘Tropa de Elite’, enfim'

  1. Érika Bueno Diz:

    Léo,

    Faço parte do time que esperou demais do filme tão comentado nas bocas “piratas”.

    Houve um estardalhaço em relação às cópias piratas também nas escolas. Uma semana antes de ser lançado o filme nos cinemas, já circulava, nas escolas, uma rede em que proibia a exibição do filme se não estivesse de acordo com o projeto pedagógico do professor, e que fosse verificada a faixa etária do filme, e que cópia pirata é crime e blá blá blá… - coisa que professor já estava careca de saber… Ou seja, a rede ajudou a promover a obra. Despertou a curiosidade e atiçou a procura do filme tão proibido. A maioria dos professores, poucos dias depois já tinha assistido ao filme. Eis que também me decepcionei. Assisti até o fim sem me entediar, mas esperava bem mais.

    Á princípio fiquei com a sensação de ser uma tentativa de, ou até mesmo uma inspiração (e por que não?!) em “Cidade de Deus”: muita ação no morro, “pipoco” rolando solto, “os mano pá, as mina pô…”, crítica social…. Até aí nada de errado. Mas quando a ação começou a se valer de clichês como as torturas imprecindíveis do policial bom que precisa acabar com o mal fizeram a história perder crédito, e concordo com você, Léo, - virou entretenimento à la “Máquina Mortífera” e 24 horas. A idéia de contar a história sob a ótica do policial, é genial, mas da forma como foi conduzida ficou maniqueísta demais. Ainda que se apóie na explicação de que é uma narrativa em primeira pessoa - portanto unilateral (e outra vez me fez lembrar “Cidade de Deus”) -, faltaram elementos mais verossímeis de argumentação - não que policial não torture, que burguês não compre droga no morro, que a condição da polícia não seja precária, etc. Um contraponto, como você citou no seu texto.

    À parte a supervalorização do filme, “diverte” bem - com o perdão da expressão.

    E educadores e pais não devem se aterrorizar quanto ao tom de violência do filme, porque não é tão ou mais forte do que todo, ou quase todo, o lixo exibido nos canais abertos.

    “Tropa de elite” foi, pra mim, uma mistura do seriado “Cidade dos homens”, com novela das oito.

    Érika

  2. Simone Ramos Diz:

    Também faço parte daqueles que não esperaram nem o filme ser exibido no cinema. Assisti pirata mesmo. Como disse minha colega Érika, foi só a diretoria de ensino enviar rede proibindo o filme nas escolas que eu fui rapidinho assistir. O filme não defende policiais (aliás, acaba com os pms, situando-os como categoria inferiorizada), não defende bandidos ou usuários, não “apresenta” nem uma tênue linha de proposta para o grave problema social no país, enfim, é apenas uma foto sob o ponto de vista de policiais do bope que se matam ( e matam ) por mais ou menos 1400 reais por mês, sem questionar a própria condição - que não é melhor que a dos pms. O que me assusta, na minha humilde visão de educadora, é que posições precipitadas conduzam as pessoas a um retrocesso em nossa história, com a tortura justificável, com o “olho por olho, dente por dente” e, mais uma vez com a banalização do sofrimento - digo isso porque presenciei alunos que adoraaaaaaraaaaammm “as parte que os maluco colocô fogo no cara…véio, foi irado…” Pior mesmo foi ler na Veja que o filme calou a boca dos “esquerdistas”, já que, na linha dos bons e velhos seriados norte americanos, a polícia foi vista como a lei. Segundo a Veja, finalmente um filme mostra a forma como a população quer que sejam tratados os bandidos (já que foi um sucesso entre o povão). É claro que não se trata de defender traficante ou usuário, muito menos de concordar com tortura. Se for pra deter, torturar, humilhar e matar, façamos todos nós. Talvez seja mais rápido e prático do que exigir o cumprimento da lei, que seria suficiente para coibir a criminalidade no Brasil…mas, aí, já é outra história, com cachorro grande demais pra mexer, não é? Acabar com a família do policial que se acaba matando bandido e não dá jeito na situação e humilhar gente que é obrigada a viver no morro entre traficantes dá ibope e satisfaz povão e muito mais gente…

  3. Érika Bueno Diz:

    Simone,

    Aqui, novamente um produto “falido” dos direitistas, a revista Veja. Digo falida do ponto de vista “meio de comunicação imparcial” o que já ficou escancarado que não é assim que funciona. Atende a uma elite interesseira e manipuladora que perdeu crédito na praça. É assim que vejo a Veja, hoje, com o perdão da aliteração.

    Quando você se indigna com a opinião exposta na revista sobre “Tropa de Elite” está coberta de razão. Eles adoram rotular e espezinhar se isto ou aquilo é de esquerda. Pra eles o importante é traçar a análise por este prisma. E como revista que já teve muita credibilidade e seriedade, dentro do possível, era de se esperar que fosse tratar o assunto do filme com mais substância e tocar em assuntos menos elitistas. E insisto que não é defesa dos tais “esquerdistas”, que vira e mexe, também incorrem no mesmo erro.

    Dê uma espiada num trecho do texto do colunista Diogo Mainardi, da Veja, desta semana: “Como me tornei num porco direitista. Aconteceu em 1984. Eu era estudante de economia em Londres. Margareth Thatcher mandou fechar 20 minas de carvão e despedir cerca de 20 mil trabalhadores. Thatcher, a filha do dono de uma mercearia, raciocinou como a filha do dono de uma mercearia e, com isso, revolucionou nossa sociedade, resgatando as idéias do maior pensador econômico de todos os tempos, Adam Smith. Adam Smith demonstrou que a cobiça de um indivíduo pode ser nefasta, mas a soma da cobiça de todos os indivíduos cria um equilíbrio ideal, que propicia o enriquecimento das nações. Levei mais de 20 anos para aceitar esse princípio elementar e me transformar num porco direitista. O mundo levou mais de dois séculos. O Brasil ainda não chegou lá.” Não é deprimente como gente assim ganha espaço e credibilidade num veículo desta dimensão?

    Estamos à mercê de uma mídia estúpida, burra, hipócrita, sem escrúpulos e que, pior ainda, continua (de)formadora de opinião. Há de se ressaltar que tem muitos críticos sérios na mídia em geral, mas que passam despercebidos do público menos inteirado.

    Nós, educadores, temos o papel de divulgar a outra faceta da mídia e de desmascarar esta que impera na nossa sociedade.

    Abraços,

    Érika

  4. Leonardo Bueno Diz:

    Simone e Érika: a Veja vem causando perplexidade há anos, e tem por quê. Ela foi preterida na política de anúncios do governo federal por não exercer um jornalismo imparcial e então radicalizou. Passou a retratar criticamente o atual governo, que é obviamente um governo de centro, como se fosse a esquerda radical.

    Um dos grupos que controla a editora Abril hoje é o sul-africano Naspers, notório em todo mundo por ter apoiado o regime do apartheid até meados da década passada. O jornalista Renato Pompeu escreveu sobre isso na revista Caros Amigos em 2006. Esse link comenta o artigo: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?cod=24338&lang=PT .

    Tem mais uma coisa: ao defender a tortura e as execuções sumárias exibidas em ‘Tropa de Elite’ como prática da polícia na vida real, Veja está fazendo apologia ao crime – não somente ao crime tipificado no nosso Código Penal, mas ao crime contra a Humanidade, passível de julgamento internacional. É com esse tipo de gente que a sociedade brasileira está tratando.

  5. FELIPE GOMES CAVALCANTI Diz:

    SOU JUSTICEIRO

  6. FELIPE GOMES CAVALCANTI Diz:

    JUSTICEIRO

  7. CArmesin Diz:

    Um Carandiru por mês
    por José Arbex Jr. 694 mortos em seis meses, entre janeiro e julho de 2007: a cifra enche de orgulho o governador do Estado do Rio de Janeiro, que parece acreditar ser esse o caminho para acabar com o império do narcotráfico na capital fluminense. Estamos, aqui, falando de um massacre do Carandiru por mês, todos os meses, ou de quatro mortes por dia – uma a cada seis horas. É absolutamente inacreditável. Difícil saber o que é pior: a leveza com que Sérgio Cabral defende o reinado do terror ou a quase total indiferença, quando não manifestações de apoio explícito com que suas declarações são acolhidas pela assim chamada sociedade civil. O governador lamenta a morte de inocentes, assim como José Mariano Beltrame, secretário de Segurança Pública do Rio, que afirma: “Não queremos que aconteçam incidentes dolorosos envolvendo crianças e pessoas de bem. Mas precisamos desarmar o tráfico com urgência.” (Folha de S. Paulo, 19.out) Certo. Faltou explicar como, exatamente, a polícia sabe quem é “do bem” e quem é “do mal”. Não raro, as versões contadas pelas autoridades sobre as mortes (invariavelmente, explicadas como reação dos policiais aos ataques dos bandidos) diferem daqueles oferecidas pelos moradores das favelas - isto é, quando eles não se sentem tão aterrorizados que consigam oferecer alguma versão.
    .
    Que mandado é esse?
    Por mais que os representantes do governo e da PM neguem, do seu ponto de vista todo morador de favela é, em princípio, suspeito, e deve ser tratado como tal. É este, precisamente, o significado do “mandado de busca coletivo”, um procedimento completamente inconstitucional e irregular, autorizado por juízes que, obviamente, compartilham da mesma percepção e cujo uso já se tornou banal no Rio e em São Paulo.
    .
    Esse procedimento permite que os policiais tomem de assalto as residências dos favelados e transformem o morro inteiro num selvagem campo de batalha.
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    Caro leitor: você já parou um segundo para pensar o que significa um mandado de busca coletivo? Significa que a polícia pode entrar em qualquer casa, a qualquer hora, revistar todos os aposentos, interrogar todos os moradores, apreender quaisquer objetos considerados “suspeitos”, por uma única razão: porque a casa situa-se numa área que se tornou alvo de uma ação policial. O mandado de busca coletivo suspende todas as garantias constitucionais, ignora completamente os direitos individuais e as normas mais básicas do convívio civilizado. É uma humilhação terrível, imposta pelo Estado aos cidadãos “do bem”, sitiados em seu próprio lar.
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    Pergunta: quais são as chances de que algum dia algum juiz autorize um mandado de busca coletivo, digamos, nos jardins de São Paulo, ou no Leblon carioca?
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    Chegamos, aqui, ao coração do problema. O governador só pode se referir com tanta leveza e orgulho aos seus Carandirus mensais porque as vítimas não existem aos olhos da classe média. São os negros e pobres das favelas, um amontoado de carne cuja falta ninguém sentirá no dia seguinte – exceto, é claro, os seus amigos e familiares que são tão negros e pobres quanto, e por isso igualmente não contam.
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    Cinismo e silêncio
    Questionado por jornalistas sobre a óbvia diferença de atitude da polícia quando suas operações são realizadas em bairros “brancos” do Rio, Beltrame nega: “”As diferenças na execução das operações existem em razão das características de cada morro ou favela e do modo de atuação das quadrilhas.” Claro, quem pode duvidar disso? E explica, também, que as mortes que acontecem hoje evitarão um número ainda maior no futuro – mais ou menos como a Casa Branca explicou que as bombas sobre Hiroshima e Nagasáqui foram uma providência humanitária (sic) para abreviar a guerra. OK.
    .
    Se o cinismo e a brutalidade dos representantes do Estado causam náuseas, não menos asqueroso é o silêncio cúmplice da classe média. Reside aí um perigo imenso: o da conivência com procedimentos de limpeza étnica, em nome do combate ao crime e ao “mal”. Já vimos esse filme antes e sabemos para onde pode conduzir.
    .
    José Arbex Jr. é jornalista

  8. felip Diz:

    as fotos da favéla ficaram muinto lokas mas
    é eu axo que as veses devemos não diviulgar as fotos

  9. Conselheiro Acácio Diz:

    Aí está uma das discussões mais idiotas que eu vi em alguns meses. Pra completar ainda deu pra ver nos comentários uma criatura que critíca Adam Smith (sem provavelmente nunca ter ouvido falar).

    Nos comentários algumas pessoas dizem que a Veja é tendenciosa. É sim, mas quem não é tendencioso? Qual orgão de imprensa no mundo inteiro não tem a opinião da direção do jornal ou dos seus redatores? Ou dos seus patrocinadores e anunciantes? A mídia independente talvez tenha a condição de ser menos tendenciosa, mas não é.

    Se ao invés de ficar repetindo essa cantilena chorona contra revista Veja, a Globo, Diogo Mainardi, Jabor e alguns outros favoritos dos jovens comunistóides/fascistóides, algum deles tentasse ler, um resumo que fosse, da Riqueza das Nações de Adam Smith, ou de qualquer livro que não tenha figuras. Aí talvez a discussão pudesse ser levada a sério.

    O triste é ver pessoas repassando opiniões sobre temas que não compreendem, sem nem mesmo se dar o trabalho de tentar se informar. Para ter algum senso crítico é preciso alguma educação, ou alguma cultura, nem precisa ser muita, mas tem que ter alguma. Se não o debate não passa de blah blah blah ideológico…

  10. Leonardo Bueno Diz:

    Acácio, ou seja lá qual for o seu nome (que o seu blog não traz; só dá pra ver uma barata quando a gente abre): você, com exatos 1.178 toques, foi um participante com louvor desta discussão que você mesmo classifica de idiota – de maneira que eu não sei como VOCÊ, tão prolixo, poderia ser classificado no meio dela. É uma discussão antiga, é verdade. O post tem oito meses. Ainda assim, você poderia ter acrescentado alguma coisa. Em vez disso (e não “ao invés” – já que o caso é patrulhamento, façamo-lo), veio com o inverso do discurso ideológico: o discurso do “você não sabe com quem está falando”, tão bem estudado por Roberto Da Matta & Cia.. Pior do que ideologia de botequim, só mesmo esse papo elitista – fascista, aliás – de que só gente como você tem direito a falar.
    E nem fala direito: se você tivesse prestado atenção no post, notaria que ninguém está criticando Adam Smith. A menção a ele está num trecho entre aspas – vem, ipsis literis, de um texto do Diogo Mainardi, ele sim criticado. Realmente, é triste ver pessoas repassando opiniões sobre temas que não compreendem…

  11. Conselheiro Acácio Diz:

    Caro Leonardo,

    Vamos por partes, como dizia o famoso Jack:

    1 - Acho que você perdeu o ponto de um pouco do que eu disse no comentário anterior. Sobre Adam Smith, tenho certeza que a outra comentarista não tinha idéia do que estava falando quando quis criticar o Mainardi. E este é exatamente o problema. É imbecil criticar caras como o Mainardi só por que cai bem na foto, ainda mais quando nem se sabe o por que de discordar dos argumentos.

    Se a comentarista em questão não concordava com as idéias em questão que usasse outro argumento além de desclassificar a idéia por pertencer à Veja. O mesmo se vê ao falar do Tropa de Elite, ao invés de se debater uma questão controversa (e até interessante) debate-se a possibilidade do filme ser facista ou não, ser de direita ou de esquerda, como se pertencer a um dos lados fizesse o filme melhor ou pior.

    2 - Quanto ao comentário do meu discurso ser ideológico, nem comento. A afirmação não tem lógica, se você afirma isso é porque realmente não entendeu absolutamente nada do que eu comentei.

    3 - Quanto ao papo elitista, fascista, e etc… convenhamos, invocar essa desculpa da patrulha ideológica é muito feio, blasé… até um pouco bobo. Faltou somente me chamar de burguês, golpista e etc… Argumente racionalmente, e não ideologicamente e aí podemos conversar.

    O que eu comento é exatamente essa falta de possibilidade de diálogo com posições diferentes (que você mesmo fez questão de demonstrar) sem que alguém logo teime em levantar o dedo para chamar o outro de fascista, porco direitista, reacionário e etc. Superemos essa fase, bola pra frente…

    4 - Quanto a ideologia de botequim, não existem dúvidas. Minhas únicas ideologias são relacionadas a temperatura ideal das minhas cervejas, e à quantidade de pimenta perfeita para o meu mocotó…

    No mais, essa discussão parece já estar indo além do necessário ;-)

    Abraços,
    Felipe

  12. Leonardo Bueno Diz:

    Caro Felipe:

    Acho que faltou humildade para você reconhecer que não havia lido direito o post que criticou. Se o problema era a posição da outra comentarista sobre o Mainardi, então seria menos imbecil (para usar o seu termo) criticá-la defendendo o Mainardi do que defendendo o Adam Smith, cujo mérito nunca foi posto em discussão.

    Mas aqui a conversa muda de foco. Esse blog não tem saco para o Mainardi e concorda com a posição da comentarista. Mainardi, aliás, não se presta, nunca se prestou, à discussão de idéias. Ele é um difamador comprovado e mais de uma vez condenado.

    Não tive a intenção de discutir esquerda e direita. Se você quiser, discutimos. Lance um post no seu blog. Vamos falar de girondinos, Adam Smith, Joaquim Nabuco, Julius Streicher, Céline, Heidegger, Chesterton, Pound, Eliot, Kazan, Milton Friedman, Bruno Tolentino, Mário Chamie, Gustavo Corção, José Guilherme Merchior, até Janer Cristaldo, por quem nutro grande admiração. Sei lá se isso é direita, nem acho que hoje em dia essa discussão tenha lógica. Mas não vou perder tempo procurando argumento para discutir o bufão Mainardi e o apartheid da Veja. Se uma coisa o nazismo e o fascismo nos ensinaram, é que quem procurava argumento para discutir contra eles acabava num forno ou com uma bala na nuca.

    Tropa de Elite é um filme fascista. É fascinante e prende a atenção, como o fascismo. E requerer que as pessoas não falem, mandá-las calar-se, é fascista também.

    Bom mocotó pra você.

    ABs

    Léo

  13. Conselheiro Acácio Diz:

    Caro Leonardo,

    Não faltou humildade para admitir que não li o post, pois li e achei bobo. Por isso o comentário. Se eu fosse o monstrinho elitista que você está desenhando, provavelmente eu ignoraria o seu comentário e ficaria aqui rindo da argumentação boboca que você levantou. Quando você traz o nazismo e o fascismo para a conversa para tentar melhorar o seu argumento só comprova quão capenga ele é (isso tem nome, procure saber sobre a lei de godwin).

    Quanto a Adam Smith e o Mainardi, acho que você ainda não entendeu o que eu quis dizer com o comentário, talvez esteja lhe faltando um pouco da humildade que você tanto me recomenda. O único motivo para o comentário foi exatamente em torno desse detalhe que você aparentemente não entendeu muito bem, e até quero acreditar que tenha sido por alguma dificuldade minha em me expressar, mas agora já estou ficando meio na dúvida…

    O lance de toda essa discussão, como eu já disse antes, é um só. E me atrevo até a lhe fazer mais uma recomendação se você me permitir: Discuta idéias, argumente racionalmente e não ideológicamente.

    Quem jogou a discussão para direita e esquerda não fui eu, mas você mesmo com o seu texto. E a razão que motivou a crítica é esta. Por que não discutir aspectos não ideológicos? Por que todo debate tem que acabar com alguém acusando o outro de fascista? Por que alguém tem sempre de convocar a tal “patrulha ideológica”.

    Quanto ao post sugerido, acho que não deve rolar. Apesar de alguns nomes na lista serem bem interessantes não vejo muito propósito em ficar discutindo o sexo dos anjos… Mas quem sabe possamos discutir outros assuntos, parece que temos opiniões bem diferentes, e sempre me interesso por novos pontos de vista.

    Só acho que ao contrário da sua conclusão no último comentário, você talvez devesse sim se prestar a um debate de idéias antes de criticar algo. Se você coloca suas opiniões em público, tem que esperar que alguém discorde, e tem que aceitar o argumento sem apelar para desclassificar quem discorda.

    Quando você exagera dizendo que “quem procurava argumento para discutir contra eles acabava num forno ou com uma bala na nuca”, talvez você mesmo não perceba estar tomando uma atitude muito parecida.

    Espero que não tenha se ofendido, pois não foi esta a intenção do comentário. Mas continuo dizendo que a argumentação da maneira que foi levantada e discutida nos outros comentários foi idiota. E isso é diferente de lhe chamar de idiota, espero que você consiga separar isso. Pois não conseguir separar essa simples diferença aí sim, indicaria uma idiotice crônica ;)

    Abraços,
    Felipe

  14. Leonardo Bueno Diz:

    Felipe, você entrou falando de um comentário que não era meu. Logo, quando você disse que a discussão era idiota, caso eu quisesse interpretar como insulto pessoal, teria considerado que você chamou a comentadora, e não a mim, de idiota. Neste caso, eu teria cortado o comentário. Até onde vi, não há insulto pessoal nesta discussão.

    Não se ofenda você se eu disse que sua posição era fascista. Era. Estou cansado de ler por aí gente dizendo que o outro lado tem mais é que ficar quieto. Calar o outro lado não é debate: é o contrário. Desqualificar o argumento do outro com termos como “imbecil” e “idiota” também não constitui argumentação lógica. São coisas tão truculentas quanto o Bope no filme, e também são coisas que você não pode dizer que sofreu neste blog.

    Isto posto, estou à disposição para qualquer debate de idéias, mas não com este tipo de ‘argumento’, ok?

    Abs

    Léo

  15. Conselheiro Acácio Diz:

    Caro Léo,

    Isto posto, continuo com minha opinião que o assuto levantado foi de pouca utilidade — para não dizer idiota — e que argumentar acusando fascismo é sempre muito fácil, mas nem sempre é o melhor para uma crítica construtiva.

    Se você comentasse que achou o filme ruim, muito violento, ou qualquer coisa do tipo, eu me recusaria a comentar qualquer coisa, não me interessaria, pois nesse caso a questão seria de pura opinião, e aí cada um tem a sua. Mas você mesmo politizou a discussão chamando o filme de fascista, e depois me chamando de fascista. Ao meu entender, não existe filme, música, livro ou poema fascista ou não fascista. Existe filme, música, livro ou poema bom ou ruim. A interpretação do filme cabe a cada um de nós. Alguns politizam a discussão, outros nem percebem todos esses “nuances”. Proibir, coagir ou classificar filmes como “de opiniões boas” ou “de opiniões ruins”, bem, não acho muito saudável.

    Eu tendo minhas convições, não me torno mais ou menos fascista após ver um filme como Tropa de Elite. Se eu fosse mais ifluenciável, aí até o programa da Xuxa poderia parecer fascista sob uma ótica mais crítica…

    Quanto ao comentário sobre calar o outro, não acho correto calar ninguém. Acho que todo o mundo deve ter direito de expor qualquer opinião, por mais estúpida (ou controversa) que ela seja. Isso é peça fundamental para o nosso estado democrático, e em nenhum momento eu me coloquei em posição de negligenciar esse direito de falar o que se quer.

    No entanto, este mesmo estado democrático que permite qualquer um opinar sobre os assuntos que deseja, me dá o direito também de responder o que eu acho, da maneira que eu vejo como a melhor.

    Isso caro amigo, não se chama fascismo. Chama-se democracia ;-)

    Abraços,
    Felipe

  16. Leonardo Bueno Diz:

    É aqui temos uma divergência inconciliável. Nossos conceitos são diferentes. Existem filmes bons ou ruins, certo; mas quem decide o que é bom e o que é ruim? Você? Eu é que não sou. Acho a música da Ivete Sangalo ruim. Péssima. Mas muitos dos meus amigos acham boa. É uma questão de opinião, o que não elimina a validade de outras análises que se façam sobre ela – por exemplo, uma análise sobre a pobreza das letras e a simplicidade do arranjo, feita por um músico ou um mestre em Letras.

    Achei Tropa de Elite um filme agradável, ótimo entretenimento. Isto faria dele um filme bom. Mas achei que ele divulga idéias moralmente condenáveis – por exemplo, ao defender, para identificação de parte de seu público, a justiça pelas próprias mãos. Isto faria dele um filme ruim. E então: achei Tropa de Elite bom ou ruim?

    Existem filmes fascistas, sim. Existem livros fascistas – Céline escreveu um deles. ‘O Triunfo da Vontade’ é um filme nazista, quem há de negar? ‘O Encouraçado Potemkin’ defendia não só o regime bolchevique em seu conteúdo, como o processo de edição que, segundo Eisenstein, professava a dialética de Hegel dentro da então nascedoura arte cinematográfica. Há conteúdo em tudo; há-o em ‘Tropa de Elite’.

    Abs

    L

  17. Figurinhas repetidas « O Conselheiro Acácio Diz:

    […] Algumas idéias e argumentos fundamentais das crônicas de Nelson, podem hoje passar desapercebidos por nós. Ficam escondidos no humor de suas crônicas, no ridículo das suas personagens ou mesmo na intimidade das suas confissões. Mesmo assim me atrevo a refletir sobre alguns pontos para esclarecer um argumento. Nelson cantou a pedra à 40 anos atrás: trocar uma idiotice de direita por uma idiotice de esquerda não resolveria nada. Ele também nos dizia que a denúncia da monstruosidade — mesmo que algumas vezes nos causasse horror — não tinha culpa da monstruosidade em si. Que nem mesmo a razão e o direito justificavam a barbárie. Isso tudo até parece óbvio, se não pensarmos em alguns fatos bem atuais como a menina presa no Pará em uma cela masculina e a ordem posterior da governadora Ana Júlia para demolir a mesma delegacia onde ela foi estuprada inúmeras vezes. Ou ainda, o pré-julgamento brutal dos Nardoni, para não ir muito longe. Por conta de uma conversa recente tive com um outro blogueiro, cito novamente o já tantas vezes mencionado Tropa de Elite. Neste caso especialmente pode-se notar uma grande estranheza. O filme mostra uma realidade violenta, a tortura policial, as condições horríveis em que estes trabalham. Fatos horríveis, mas reais e conhecidos. Talvez o diretor esperasse provocar com isso algum debate, algum protesto, não sei dizer ao certo. No entanto o que se nota até o momento, mesmo tantos meses depois do filme estrear é que ainda não se critica a realidade dos fatos. Se critica a ficção, pois esta mostra a violência, denuncia a monstruosidade. Decidem por isso chamar o diretor de fascista, e acusam quem venha a defender o filme de ser igualmente fascista. […]

  18. Conselheiro Acácio Diz:

    Léo,

    Comecei a escrever uma resposta para o seu último comentário mas acabei me empolgando — ficou muito grande — transformei em um post no meu blog, espero que você não se importe.

    []’s

  19. Leonardo Bueno Diz:

    Beleza. Não pude checar hoje, mas amanhã vou dar uma olhada. Ab

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